Gagueira e sono (II)

maio 14, 2012 | por Sandra Merlo | Gagueira, Sono

A privação de sono não permite que o cérebro seja adequadamente desintoxicado, aumenta a tensão muscular de todo o corpo e degrada as funções cognitivas (como a atenção). Todos esses fatores ocasionam piora da gagueira.

E como exatamente a falta de sono pioraria a gagueira? Penso em três hipóteses:

 

1) A privação de sono interferiria no funcionamento dos neurônios envolvidos no processamento da fala

Ainda não se sabe ao certo por que o sono é vital, mas acredita-se que o sono é necessário como um mecanismo de desintoxicação do cérebro após a intensa atividade metabólica da vigília. Para que a desintoxicação adequada ocorra, o sono precisa ser de qualidade (em relação à duração, continuidade, fase e regularidade). Alterações de sono, portanto, fariam com que os neurônios envolvidos no processamento da fala não sejam devidamente desintoxicados durante a noite, o que os faria funcionar com menor eficiência no dia seguinte. Essa menor eficiência se traduziria em aumento da frequência da gagueira.

Esta hipótese apresenta semelhanças com a descoberta dos três primeiros genes relacionados à suscetibilidade à gagueira: GNPTAB, GNPTG e NAGPA, localizados no cromossomo 12.

O funcionamento celular gera resíduos metabólicos, que precisam ser reciclados ou retirados da célula. Os responsáveis por essa limpeza são os lisossomos, os quais são produzidos no Complexo de Golgi.

Os genes GNPTAB e GNPTG ajudam a codificar uma determinada enzima (a GNPT), enquanto o gene NAGPA codifica outra enzima (a chamada “enzima de descobertura”). Essas duas enzimas ajudam a formar uma terceira enzima (a hidrolase lisossômica com M6P exposto), que é transportada para o endossomo tardio, o qual depois vai se transformar em lisossomo.

Se há mutações nos genes GNPTAB, GNPTG e/ou NAGPA, os processos de produção das enzimas GNPT e de descobertura são prejudicados. Consequentemente, o processo de limpeza celular não é executado como esperado, gerando as chamadas “doenças de depósito”.

Ou seja, tanto as alterações de sono, quanto a presença de mutações nos genes GNPTAB, GNPTG e NAGPA ocasionam problemas na desintoxicação e na limpeza celular.

 

2) A privação de sono interferiria no relaxamento da musculatura relacionada à fala

O sono é composto por quatro estágios diferentes, que se alternam ciclicamente durante a noite. Do tempo total de sono à noite, podemos dizer que:

  • 50% do sono é leve;
  • 25% do sono é profundo. É este sono que nos dá a sensação de descanso. A ocorrência de sono profundo é mais longa no início da noite, quando estamos mais cansados [1]. Conforme vamos descansando, as ocorrências de sono profundo ficam mais breves.
  • 25% do sono é REM (rapid eye movement, movimento rápido dos olhos). Ao contrário do sono profundo, o sono REM vai aumentando sua duração ao longo da noite. É neste estágio de sono que ocorre um intenso relaxamento muscular [1]. Portanto, dormir menos horas do que o necessário, afeta principalmente as ocorrências de sono REM, relacionadas ao relaxamento muscular. No dia seguinte, com maior tensão muscular nos órgãos fonoarticulatórios (como lábios, língua e laringe), os bloqueios serão mais tensos, piorando a intensidade da gagueira.

 

3) A privação de sono interferiria no funcionamento de neurônios relacionados a funções cognitivas que dão suporte à melhora da fala

Se a privação de sono não proporciona a desintoxicação metabólica adequada dos neurônios relacionados à fala, o mesmo vai ocorrer com neurônios relacionados a outras funções cognitivas.

A fonoaudiologia dispõe de uma série de estratégias de fala para serem utilizadas em casos de gagueira. Nem todas as estratégias servem para todos os casos. Mas o que há de comum entre elas é o fato de que, inicialmente, melhoram a fluência através do uso voluntário e consciente. Primeiro, o paciente precisa prestar atenção à sua fala (ao tipo de hesitação que está apresentando, por exemplo) para saber que estratégia é mais eficaz. Isso exige atenção dividida, porque é necessário estar atento à forma da fala ao mesmo tempo em que se está atento ao seu conteúdo. Também exige a função executiva de categorização, porque, a partir do problema detectado, deve-se escolher a estratégia mais adequada. Segundo, depois de escolhida a estratégia, é necessário aplicá-la na fala pelo maior tempo possível, o que exige atenção sustentada.

A falta de sono tem um grande impacto sobre processos cognitivos, como atenção e funções executivas. Neste caso, a gagueira pode piorar, porque o paciente simplesmente tem dificuldade para prestar atenção à sua fala, escolher a estratégia terapêutica mais adequada e aplicá-la.

Claro que, quanto mais o paciente treinar as estratégias que são eficazes para sua fala, mais elas tenderão a se automatizar. Mas isso ocorre aos poucos, sendo necessários alguns meses de treinamento. Somente depois que estiverem automatizadas, a falta de sono tende a não mais interferir na sua aplicação.

Já está estabelecido que alterações de sono em crianças e adolescentes são fatores de risco para o desenvolvimento de transtornos como ansiedade, depressão, desatenção, hiperatividade e impulsividade. Talvez as alterações de sono também possam ser fatores de risco para o início e a manutenção da gagueira.

 

 

Referência

[1] Guyton, A. C. & Hall, J. E. (1996). States of brain activity – sleep; brain waves; epilepsy; psychoses. In: Textbook of medical physiology (pp. 761-768). 9th ed. Philadelphia: W.B. Saunders.

 

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