Privação de sono

jun 18, 2012 | por Sandra Merlo | Fisiologia, Gagueira, Sono

A insônia crônica reduz o número de neurônios em determinadas regiões do cérebro.

Dormir pouco é inofensivo ou pode provocar danos permanentes ao cérebro? É esta questão que pretendo abordar no último post da série “Gagueira e sono”.

Boa parte dos problemas de sono envolve dificuldades com o sono em si: por exemplo, dormir poucas horas, demorar muito até conseguir dormir, acordar várias vezes durante a noite ou acordar muito cedo pela manhã. São os chamados distúrbios primários do sono.

Um estudo publicado em 2010 analisou a estrutura cerebral de adultos com e sem insônia crônica. O grupo com insônia era composto por 24 pacientes, entre 52 e 74 anos, de ambos os sexos. Os resultados indicaram que havia redução de substância cinzenta (lesão) no córtex orbitofrontal e também no precuneus dos pacientes com insônia em comparação aos sujeitos sem insônia.

O precuneus é o córtex parietal posterior (área 7 de Brodmann), já discutido no post “Gagueira e sono (V)”. Acometimentos nesta região podem ter consequências negativas para a terapia fonoaudiológica da gagueira (maiores detalhes aqui).

O córtex orbitofrontal está relacionado à atribuição de valores afetivos para as experiências vividas (áreas 10, 11 e 47 de Brodmann). Por isso, conecta-se virtualmente com todo o cérebro. Conecta-se inclusive com o córtex auditivo secundário, com o córtex pré-motor e com o estriado, todas áreas diretamente envolvidas na gagueira.

O fato de a falta crônica de sono lesionar o córtex orbitofrontal pode ajudar a entender por que algumas pessoas com gagueira apresentam reações emocionais muito negativas às experiências relacionadas à fala. Alguns são muito sensíveis a experiências de punição social (como, por exemplo, o deboche do interlocutor). Por outro lado, outras pessoas são pouco sensíveis a experiências de sucesso e reforço positivo (assim, conseguir se sair bem em uma situação não estimula para enfrentar outras situações). Esses dois tipos de comportamentos emocionais tendem a prejudicar e retardar o progresso terapêutico.

O estudo citado mostrou que a privação crônica de sono lesiona o cérebro de adultos. Entretanto, a privação crônica de sono é ainda mais prejudicial na infância, porque o cérebro ainda está em crescimento (principalmente em relação à substância cinzenta). A estimativa é que 80% das crianças com algum tipo de problema neurológico apresentem algum problema de sono, o que dificulta ainda mais a reabilitação.

Mas como ocorreriam as lesões cerebrais devido à falta crônica de sono? Dois mecanismos têm sido mais estudados: o estresse oxidativo e a expressão gênica.

Uma das funções do sono é realizar a desintoxicação do cérebro. Especificamente, acredita-se que os radicais livres produzidos pelo funcionamento cerebral durante a vigília sejam removidos durante o sono. Quando há presença excessiva de radicais livres nas células, temos uma condição chamada de “estresse oxidativo”. O estresse oxidativo é perigoso, porque lesiona as células. A lesão estrutural aos neurônios pode ocorrer de diversas maneiras: pode ser lesionada a membrana celular, as organelas no interior do neurônio e/ou o DNA do neurônio. Se a estrutura do neurônio for afetada, ele não vai funcionar adequadamente.

Uma outra forma de a falta crônica de sono lesionar o cérebro é por afetar a expressão de certos genes. Existem genes que são ativados apenas durante a vigília, outros são ativados apenas durante o sono e ainda outros que são ativados pela falta de sono (neste caso, ocasionando consequências adversas para o cérebro, especialmente em crianças). No cérebro de camundongos, por exemplo, cerca de 2 mil genes são ligados e desligados entre o sono e a vigília. Neste sentido, é possível que problemas de sono deem início a um quadro de gagueira através da ativação dos genes relacionados à gagueira em crianças que possuem esses genes. A experiência clínica mostra que a gagueira infantil pode melhorar muito ou até mesmo totalmente quando os problemas de sono da criança são identificados e resolvidos.

Encerro aqui a série de posts sobre gagueira e sono. Espero ter conseguido discutir possíveis mecanismos sobre como os problemas de sono podem iniciar, manter e dificultar a melhora da gagueira.

 

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