Gravação de fala (I)

jul 16, 2012 | por Sandra Merlo | Tecnologia de fala

acoustic ceiling with lightUma colega fonoaudióloga solicitou ajuda para fazer uma boa gravação de fala em um ambiente comum, sem estar em um estúdio profissional. É possível obter boa qualidade de gravação em uma sala de consultório, por exemplo? Com alguns ajustes no ambiente e com bons equipamentos de áudio, é possível.

Vou relatar algumas informações sobre como organizar o ambiente físico a fim de se obter uma boa gravação de fala. Certamente um arquiteto ou engenheiro (especialmente um com especialização em acústica) pode fornecer informações mais amplas e acuradas, mas este já é um começo.

 

Ambiente de gravação

O raciocínio principal é organizar o ambiente para que ele propicie a absorção do som. O que não se deseja é a reflexão do som. A maior ou a menor absorção sonora vai depender do tipo de material presente no ambiente. A ideia é colocar no ambiente materiais que “roubem” energia do som.

A presença de materiais que propiciam a maior absorção sonora melhora a inteligibilidade da fala e atenua ruídos indesejados. Isso contribui muito para o conforto acústico. A sensação de se estar em um “hospício acústico” deve-se à presença de materiais que propiciam a reflexão sonora em excesso.

 

Paredes

Existem dois tipos de paredes acústicas: aquela que já é construída para ser uma parede acústica e a parede comum que foi adaptada para ser acústica.

A parede que já foi construída para ser acústica possui dupla parede de concreto e, entre elas, há um material com grande capacidade de absorção sonora (como espuma ou lã de vidro). Veja aqui um exemplo. Tanto o fato de haver a dupla estrutura quanto a presença do material absorvente auxiliam no isolamento do ambiente.

Outra possibilidade é transformar uma parede comum em acústica. Neste caso, são colocadas placas acústicas por cima da parede. O acabamento final é geralmente realizado com pintura, o que fornece um bom acabamento estético. Veja aqui um exemplo.

Também pode ser utilizado revestimento externo de espuma acústica por cima da parede comum. O acabamento pode ficar bem interessante, porque hoje em dia existem espumas de diversas cores e formatos, sendo possível escolher a que mais combina com o ambiente (veja exemplos aqui). A durabilidade da espuma acústica é de 5 anos.

E ainda outra solução é utilizar cortiça como revestimento externo da parede comum. O material absorve bem o som e é durável. De todas as possibilidades, esta é a de custo mais acessível.

 

Forro

O forro é a principal área de reflexão sonora de um ambiente devido ao fato de ser todo vazio.

O forro acústico é feito de ou possui um material que absorve o som. Existem diversos tipos: fibra mineral, lã de vidro, gesso com lã de vidro, espuma de poliuretano, madeira com lã de vidro, metálico com lã de vidro. Os forros acústicos atenuam de 20 a 50 dB. O acabamento estético é bom. Veja aqui um exemplo de forro de fibra mineral.

Os forros acústicos sempre trazem a informação de seu coeficiente de absorção sonora em cada frequência. Se você deseja atenuar o ruído do trânsito, opte por um forro com maior atenuação abaixo de 500 Hz. Já se você quer atenuar ruídos de fala (da sala ao lado, por exemplo), opte por um forro que atenue mais entre 500 e 2000 Hz.

 

Piso

O piso é a área de menor reflexão sonora em um ambiente devido ao bloqueio de energia ocasionado pela mobília.

Assim como ocorre com as paredes, também existem dois tipos de piso acústicos: aquele que já é construído para ser acústico e aquele que foi adaptado.

O piso construído para ser acústico possui um revestimento de espuma ou de cortiça que é colocado sobre o contrapiso; em cima do revestimento, coloca-se o piso externo (geralmente madeira). Veja aqui um exemplo. Devido ao revestimento, os ruídos entre pavimentos são atenuados. Este tipo de piso chega a atenuar até 25 dB.

E também existem pisos comuns que são adaptados para se aproximarem de um piso acústico. Neste caso, são pisos de borracha, vinílico ou carpete. Todos esses materiais absorvem melhor o som em comparação com madeira ou cerâmica.

 

Portas e janelas

A porta acústica possui maior espessura do que a tradicional, revestimento de espuma ou lã de vidro em seu interior e esquadria com vedação de borracha. Veja aqui um exemplo de porta acústica. As portas acústicas podem isolar de 20 a 60 dB. Uma porta comum isola apenas 10 dB.

Já a janela acústica possui de dois a quatro vidros e esquadrias com vedação de borracha. O que mais realiza o isolamento acústico é a esquadria com vedação e não os vidros. Veja aqui um exemplo de janela acústica. As janelas acústicas podem isolar de 20 a 50 dB. Uma janela comum isola apenas 10 dB.

 

Exemplo

No vídeo abaixo, o profissional contrasta três situações: uma sala rústica, sem qualquer tratamento acústico; a mesma sala tendo recebido forro acústico; e, por último, a mesma sala com forro acústico e revestimento de parede. A diferença na reverberação do som é nítida em cada fase do processo. Os valores que aparecem no vídeo referem-se ao “tempo de reverberação”, que é o tempo necessário para que a energia acústica decaia em 60 dB depois que a fonte sonora foi extinta.

 

 

Nesta página, você pode calcular o tempo de reverberação da sua sala.

 

Possibilidades

 

Ideal

O ideal seria ter um ambiente com todas essas estruturas acústicas: paredes, forro, piso, portas e janelas. Entretanto, o custo de um ambiente assim é alto. Por isso, só vale a pena mesmo para estúdios profissionais. São adequados como parte das instalações físicas em cursos de fonoaudiologia, linguística ou música, por exemplo, tendo em vista que os alunos estão constantemente realizando gravações.

 

Intermediário

Um consultório de fonoaudiologia, entretanto, pode adotar uma solução intermediária. A seguir, algumas sugestões para quem pretende construir ou reformar:

  1. A prioridade deve ser a instalação de um forro acústico, tendo em vista que o forro é a principal área de reflexão sonora. A gama de preços varia, mas existem boas opções a preços acessíveis.
  2. Verificar a possibilidade de tratamento acústico para as paredes. Um revestimento de cortiça é adequado e de custo acessível.
  3. É recomendável a instalação de um piso acústico ou, pelo menos, um piso comum com características acústicas (como o de borracha ou o vinílico; não é permitido o uso de carpetes ou pisos de madeira em consultórios de fonoaudiologia devido às normas da Vigilância Sanitária). Também existem boas opções a preços acessíveis.
  4. Portas acústicas podem ser um investimento importante se houver necessidade de isolar mais a sala de atendimento da sala de espera, por exemplo.
  5. Janelas acústicas são itens de alto custo. Talvez só valham a pena se o consultório estiver localizado em uma região com muito barulho (próximo a um aeroporto, por exemplo).

No meu consultório, optei por uma solução intermediária. Utilizo forro de fibra mineral, com atenuação de 35 dB e maior absorção sonora entre 500 e 2000 Hz. Também utilizo piso vinílico; a possibilidade de piso cerâmico foi descartada exatamente pela questão acústica. A parede que separa a sala de atendimento da sala de espera é mais espessa em comparação a uma parede comum, o que propicia maior isolamento (embora não se iguale a uma parede acústica). Não utilizo portas e janelas acústicas.

 

Mobília

Se não for possível reformar a sala, que ajustes podem ser feitos? O raciocínio continua sendo o mesmo: utilizar material (neste caso, mobília) que absorva o som. Por exemplo:

  • Colocar um tapete grande sobre o piso. Um tapete de 5 mm de espessura absorve 15% e 59% da energia acústica em 500 e 2000 Hz, respectivamente. Se for um tapete com 5 mm de espessura e base de feltro, os índices de absorção são ainda melhores: 57% e 81% em 500 e 2000 Hz, respectivamente.
  • Utilizar cadeiras ou poltronas estofadas, cobertas com tecido. Os índices de absorção são de pelo menos 20% e 25% em 500 e 2000 Hz, respectivamente.
  • Colocar cortinas de tecido na janela. Privilegiar tecidos mais grossos e modelos com drapeados. Uma cortina de tecido grosso e drapeado absorve 40% e 60% em 500 e 2000 Hz, respectivamente.
  • Utilizar painéis decorativos de cortiça nas paredes. Veja exemplos esteticamente interessantes aqui, aqui e aqui.

Esses e outros índices de absorção sonora podem ser vistos aqui.

 

Isopor e caixa de ovo: mitos acústicos

Popularmente, o isopor e a caixa de ovo são tidos como bons materiais para a absorção acústica. Isso não é verdade. O isopor é bom isolante térmico. E a caixa de ovos serve para guardar ovos.

 

Como visto, existem diversas possibilidades para tratar acusticamente um ambiente. A escolha vai depender do planejamento, relação custo-benefício e orçamento. Mesmo pequenas mudanças de mobiliário podem fazer uma boa diferença no resultado da gravação.

 

 

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