A família linguística do português (III)

nov 19, 2012 | por Sandra Merlo | Linguística histórica

europa in blauPara finalizar a série, vamos falar sobre a língua que deu origem ao português: o galego antigo (também chamado de galego arcaico ou galego medieval).

 

Galego antigo

O Ethnologue denomina a língua que deu origem ao português, ao galego e à fala de Xálima de “galego-português”. Outras fontes também utilizam este denominação. Entretanto, vou seguir o argumento de Marcos Bagno e chamar a língua ancestral do português de “galego antigo”. Isso porque, no século XII, a língua falada no Reino da Galícia e na parte mais ao norte de Portugal era o galego (na parte mais ao sul de Portugal falava-se árabe). O português ainda não existia. Com a independência de Portugal (no início do século XII), o galego tomou um rumo diferente no novo país e, dois séculos depois, havia surgido outra língua, o português. Então, é mais correto afirmar que o português descende do galego antigo. Sendo assim, a língua de origem do português é melhor designada simplesmente como “galego” e não como “galego-português”.

Há registros históricos do galego antigo? Sim, principalmente através das cantigas medievais. Vamos utilizar a seguinte cantiga medieval de Martim Codax para comparar o português atual com o galego antigo.

 

Pela cantiga, vemos que derivam do galego antigo:

  • Praticamente todo o quadro consonantal do português (oclusivas, fricativas, nasais, laterais e vibrantes).
  • A clara tendência do português ao rotacismo, ou seja, a transformação do [l] em [ɾ]. Essa tendência é explícita quando se compara o português com outras línguas românicas: “igreja” em português, “iglesia” em espanhol, “église” em francês. A fala de Xálima, por outro lado, difere do galego antigo neste aspecto, tendo em vista que tende ao lambdacismo.
  • A tendência a acentuar preferencialmente a penúltima sílaba (padrão paroxítono).
  • Muitos elementos do léxico e da morfossintaxe do português.

As cantigas medievais mais importantes em galego antigo são as Cantigas de Santa Maria, compostas na corte do Rei Afonso X de Castela durante o século XIII. São 420 poesias que podem ser cantadas. Os manuscritos que restaram estão na Biblioteca Nacional de Madri (Espanha) e na Biblioteca Nacional Central de Florença (Itália). No Brasil, a linguista Gladis Massini-Cagliari dedica-se a estudar o galego antigo através das Cantigas de Santa Maria. Também existe um centro específico de estudo das Cantigas de Santa Maria na Universidade de Oxford.

O grau de inteligibilidade com o português atual é significativo. Veja, por exemplo, a cantiga “Santa Maria, Estrela do Dia” (abaixo no vídeo com legenda). Chama atenção a presença das africadas mais anteriores [ts, dz], inexistentes no português atual.

 

E o romance?

Como vimos, o português descende diretamente do galego antigo. Este, por sua vez, descende do romance.

Do romance também se originaram quatro dezenas de línguas:

  • Do romance do leste europeu, surgiram as diversas variações do romeno e o arromeno.
  • Do romance do sul europeu, surgiram as diversas variações do sardo e o corso.
  • Do romance na Itália, surgiram línguas como italiano, napolitano e siciliano.
  • Do romance do oeste europeu, surgiram muitas outras línguas, como o francês, o romanche, o catalão, o ocitano, o mirandês, o espanhol e o português.

As línguas românicas são utilizadas principalmente no Ocidente.

Assim, além de ser uma língua galega, também é correto dizer que o português é uma língua românica, mas isso implica ampliar o leque de comparação para línguas que apresentam semelhanças, mas também muitas diferenças em relação ao português.

 

Mas e o latim?

Já faz parte do saber popular dizer que “o português vem do latim” ou que “o português é uma língua latina”. É verdade, mas a relação é apenas indireta. É o romance que deriva diretamente do latim, não o galego e muito menos o português.

Refazendo o caminho então: português ϵ galego antigo ϵ romance ϵ latim vulgar.

Na classificação das línguas, o galego antigo faz parte das línguas ibéricas ocidentais, as quais fazem parte das línguas íbero-românicas, as quais fazem parte das línguas galo-ibéricas, as quais fazem parte das línguas ítalo-ocidentais, as quais fazem parte das línguas românicas, as quais fazem parte das línguas latinas!

Enfim, é um longo caminho do português até o latim.

Para uma discussão mais aprofundada sobre a relação entre português, galego e latim, ver o artigo “O português não procede do latim” de Marcos Bagno.

 

 

* Gostaria de agradecer ao professor Antonio Carlos Santana de Souza pela indicação do artigo de Marcos Bagno.

 

2 Comments »

  1. “Excelente serie de textos sobre a diversificación das linguas desde o galego antigo!” [frase em galego segundo o Google Translate]
    Agora em português: adorei essa série. Mesmo sendo leigo em Linguística, consegui acompanhar a descrição comparativa das línguas com base nos exemplos e vídeos que forneceu, e acabei me fascinando com a história de sua diversificação.
    Além disso, os argumentos das hipóteses sobre a evolução do português, galego e fala de Xálima (p.ex., origem comum no galego antigo, isolamento geográfico e diversificação) e a semelhança destes com conceitos de evolução biológica me incentivaram a pesquisar mais sobre a produção científica na área de Linguística Histórica. O que encontrei foi que, de fato, os métodos empregados por biólogos evolucionistas e linguistas históricos são muito semelhantes. Ambos os grupos de pesquisadores buscam responder quais as relações de parentesco entre os elementos de estudo (seres vivos/línguas) e seu ancestral comum, propondo e testando hipóteses de homologia. O próprio Darwin achou curiosa a semelhança entre os processos de evolução linguística e evolução biológica. Além disso, o desenvolvimento teórico e metodológico de ambas as áreas apresenta uma série de paralelos notáveis. Atkinson & Gray (2005) apresentaram uma revisão interessante sobre o tema (http://sysbio.oxfordjournals.org/content/54/4/513.short). Vale a leitura.
    Aguardo outras séries sobre Linguística Histórica!

    Comentário by JM — 10 de setembro de 2014 @ 18:48

  2. Olá, JM,
    Desculpe a demora na resposta.
    Sim, a história da evolução das línguas naturais é fascinante.
    Muito interessante a semelhança entre métodos de estudos de biólogos evolucionistas e linguistas históricos. Nunca tinha me dado conta desta similaridade. Obrigada pela indicação do artigo.
    Tenho a intenção de escrever alguns textos sobre a evolução do inglês. É a história da língua que explica por que o inglês parece “mais simples” em relação ao português (p. ex., por quase não haver conjugação verbal). Bem interessante também.
    Abs, Sandra

    Comentário by Sandra Merlo — 29 de setembro de 2014 @ 12:52

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