Gagueira e álcool (II)

dez 10, 2012 | por Sandra Merlo | Álcool, Gagueira

A molécula do álcool age como inibidora do sistema nervoso. Daí sua capacidade de propiciar relaxamento mental e muscular. Por isso, o álcool pode, temporariamente, melhorar a fluência de pessoas com gagueira.

Na prática clínica, questões sobre gagueira e álcool podem aparecer espontaneamente por iniciativa do próprio paciente ou em resposta ao questionamento direto do fonoaudiólogo. O paciente costuma relatar (geralmente de maneira anedótica) a melhora da fluência quando está sob efeito de álcool. Diversas dúvidas podem ser explicitadas:

  • A melhora da gagueira é devido ao relaxamento emocional e à desinibição?
  • Para melhorar a gagueira pode beber só um pouco?
  • É comum pessoas com gagueira fazerem uso do álcool para conseguir falar com mais fluência?
  • O quanto pode beber sem ser alcoólatra?
  • Algum dia a gagueira terá melhorado o suficiente para que se possa dispensar o álcool como “terapêutica” da gagueira?

 

A melhora da fluência é devido ao relaxamento emocional e à desinibição?

Não gostaria de dar a entender que toda pessoa com gagueira experimenta melhora na fluência ao fazer uso de álcool, mas isso acontece em muitos casos, sim.

O álcool é absorvido ao longo de todo o trato digestivo, mas principalmente no intestino delgado [1]. O metabolismo do álcool ocorre no fígado, onde será, em última instância, transformado em ácido acético (o mesmo do vinagre) [1].

Através da corrente sanguínea, o álcool também chega ao cérebro. Daí sua influência em funções como fala, atenção e memória. No cérebro, a molécula do álcool (etanol) liga-se aos receptores de ácido gama-aminobutírico (GABA). A ligação nesses receptores gera inibição da função neuronal, o que é compatível com os sintomas apresentados, tais como:

  1. Relaxamento mental, que propicia sensação de menor ansiedade e preocupação.
  2. Relaxamento muscular.
  3. Redução do controle de impulsos, fazendo com que a pessoa passe a falar mais e a se expor mais (desinibição).
  4. Diminuição da atenção e da memória.
  5. Lentidão no raciocínio, na percepção e na reação motora.

Então, a melhora da fluência não é apenas pela diminuição da ansiedade e pela desinibição, mas também pelo efeito do álcool na redução da tensão muscular.

 

Para melhorar a gagueira pode beber só um pouco?

Existem sete estágios de embriaguez: subclínico, euforia, excitação, confusão, estupor, coma e morte [1]. Os estágios que levam à melhora da fluência provavelmente são apenas os dois iniciais (subclínico e euforia). Então, sim, para melhorar a gagueira pode beber só um pouco.

  1. No estágio subclínico, o comportamento da pessoa aparenta ser normal, mas há quantidades detectáveis de álcool no sangue.
  2. No estágio de euforia, a quantidade de álcool é um pouco maior, o que proporciona sensação de bem-estar, sociabilidade, autoconfiança, desinibição e aumento da fluência verbal. Entretanto, também ocorre diminuição da atenção, da percepção sensorial, das habilidades motoras e da capacidade de julgamento.
  3. A partir dos demais estágios, a produção da fala tende a se degradar. A partir do estágio de confusão, a “fala arrastada” (fala disártrica) é evidente [1].

Pequenas quantidades de álcool podem ter efeito de prevenção de infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e doença de Alzheimer [1]. Não se trata de incentivar o abuso de álcool, tendo em vista que o consumo excessivo é fator de risco para acidentes e doenças crônicas (como câncer, diabetes, infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral, pancreatite, cirrose hepática, depressão e ansiedade) [1]. Pessoas com intolerância ao álcool, deficiências enzimáticas ou com antecedentes familiares de alcoolismo devem evitar seu consumo.

 

É comum pessoas com gagueira fazerem uso do álcool para conseguir falar com mais fluência?

A ansiedade é talvez a consequência psicológica mais comum da gagueira crônica. Praticamente metade dos adultos com gagueira preenchem critérios para diagnóstico de fobia social, que é o medo persistente e excessivo de situações de exposição social (como falar em público) e o medo das avaliações negativas subsequentes à exposição.

É sabido que níveis excessivos e crônicos de ansiedade podem motivar o abuso de álcool. O uso do álcool seria uma “automedicação” com o objetivo de reduzir a ansiedade e a tensão emocional.

Por isso, é razoável supor que um adolescente ou um adulto com gagueira crônica que se sinta muito ansioso frente a situações de exposição social possa abusar de álcool. Uma pesquisa australiana testou esta hipótese.

Nesta pesquisa, foram estudados 92 adultos com gagueira (75% homens e 25% mulheres), entre 18 e 73 anos de idade. Todos eles estavam em listas de espera para tratamento de gagueira na Austrália. Esses adultos foram comparados com 920 adultos sem gagueira, pareados por sexo e idade. A forma de avaliação consistiu no preenchimento de um questionário padrão para diagnóstico de abuso ou dependência de álcool (perguntas relacionadas à quantidade e frequência de ingestão de bebidas alcoólicas, sintomas de abstinência e problemas gerados pela ingestão de álcool).

Os resultados indicaram que em torno de 8% dos adultos com gagueira tinham histórico de dependência alcoólica. No grupo controle, essa taxa era em torno de 12%. A diferença entre os grupos não foi significativa estatisticamente. Ou seja, a pesquisa indicou que adultos com gagueira que buscam tratamento fonoaudiológico não abusam ou não são dependentes de álcool de forma mais significativa do que a população em geral.

Os autores do estudo especularam por que a taxa de abuso ou dependência de álcool não foi maior no grupo com gagueira e levantaram duas hipóteses:

  • Uma possibilidade é que adultos com gagueira não abusem de álcool simplesmente porque evitam situações de exposição social e, por isso, não sentem necessidade de recorrer ao álcool. Se pressionados a se exporem, aí talvez o álcool pudesse ser pensado como uma “saída”.
  • Outra possibilidade é que adultos com gagueira que procuram tratamento tenderiam a abusar menos de álcool por acreditarem que possam melhorar e por acreditarem nos recursos terapêuticos disponíveis.

Estima-se que 12% da população brasileira seja dependente de álcool [1]. Então, em princípio, esta seria a estimativa de pacientes que, além de apresentar gagueira, também seriam dependentes de álcool.

 

O quanto pode beber sem ser alcoólatra?

Não é possível afirmar que haja uma quantidade realmente segura de consumo. O que pode ser seguro para um, pode não ser para outro. Mas a psiquiatra define como “uso social e moderado de álcool” o consumo de até 1 dose por dia para mulheres e 2 doses por dia para homens [1].

E o que é uma dose? A quantidade (em ml) depende da bebida [1]:

  1. Uma dose de cerveja equivale a 350 ml. Tem 5% de álcool.
  2. Uma dose de vinho tinto equivale a 100 ml. Tem 12% de álcool.
  3. Uma dose de destilado equivale a 40 ml. Tem 40% de álcool.

Atualmente, existem dois diagnósticos em relação ao uso de álcool [1]:

  • Abuso: quando a pessoa tem problemas ocasionais devido à ingestão de álcool (dirigir alcoolizado, multas de trânsito, repreensão no trabalho, queixas dos familiares, etc.).
  • Dependência: quando a pessoa enfrenta problemas repetitivos devido à ingestão de álcool por pelo menos um ano.

Os diagnósticos de abuso e dependência de álcool não levam em conta a quantidade e a frequência de álcool ingerido, mas os problemas decorrentes da ingestão [1].

Também se discute a necessidade de haver outros diagnósticos, como o “beber pesado episódico”. Quem bebe pesado ingere grandes quantidades de álcool em uma única ocasião (4 ou mais doses para mulheres e 5 ou mais doses para homens) [1].

 

Algum dia a gagueira terá melhorado o suficiente para que se possa dispensar o álcool?

Para aqueles que abusam ou que são dependentes de álcool em razão da gagueira, a melhora da fluência é a grande meta. Para isso, é necessário um plano de tratamento personalizado. Nesses casos, eu particularmente estabeleço metas a serem alcançadas por trimestre: a cada três meses, eu e o paciente analisamos se as metas de fluência, de bem-estar e de redução de consumo estão sendo alcançadas. Acho que este esquema mantém o paciente mais motivado e mais comprometido com o tratamento.

Em casos de abuso ou dependência, a atuação não costuma ser apenas do fonoaudiólogo, mas também de um profissional da área psi (psiquiatra, psicólogo ou psicanalista).

Pessoas com gagueira que apresentam algum distúrbio de saúde mental (por exemplo, ansiedade com ou sem abuso de álcool) melhoram menos durante a terapia fonoaudiológica e mais frequentemente perdem os resultados obtidos com a terapia (recidiva). Por isso, o tratamento dos distúrbios de saúde mental é tão importante na terapia de gagueira, incluindo aí o abuso ou a dependência de álcool.

 

 

Referência

[1] Andrade, Arthur G.; Alvarenga, Pedro G. & Silveira, Camila M. (2008). Transtornos relacionados ao álcool. In: Fundamentos em psiquiatria (pp. 247-266). Barueri, SP: Ed. Manole.

 

  • JM

    Muito interessante a série de textos sobre gagueira e álcool. Sua postura diante dos casos clínicos que descreveu me impressiona pela coragem em enfrentar um tema tão delicado (para todas as faixas etárias). Mas, enfim, a própria gagueira é um tabu – então, você já está habituada/preparada para lidar com “temas delicados”. Mas, mesmo assim, não me parece uma tarefa simples.
    Penso que um fator agravante a esses casos de consumo de álcool associado à gagueira seriam os momentos de frustração relacionados à fala, comuns à maioria dos gagos (p.ex., em recidivas). Além dos fatores que descreveu e discutiu nesta série, imagino que o consumo de álcool poderia ser aumentado também em resposta a essas frustrações e à angústia resultante.
    Ainda sobre gagueira e drogas: me pergunto se existe algum estudo sobre (ou se você já vivenciou na prática clínica) a relação entre gagueira e tabagismo?
    No caso, a nicotina resultaria em efeito inverso ao do álcool na questão da fluência, por ser estimulante e não depressora do SNC? Desconheço evidências para essa relação entre drogas estimulantes e gagueira, mas, se for este o caso, o indivíduo não buscaria na nicotina um efeito de melhora na fluência, diferentemente do caso do álcool. É claro que, para o dependente, a impressão é a de que a nicotina proporciona “relaxamento” imediato, mas, como em qualquer droga que causa dependência, o que temos é apenas alívio da ansiedade provocada pela abstinência da própria droga.
    Entretanto, alguns fatores poderiam, hipoteticamente, levar algumas pessoas que gaguejam a experimentar o cigarro. Embora muitos enxerguem esse hábito como associado justamente a situações de interação social (o que parece ser verdade em muitos casos), não creio que isso seja universal. Embora “fumo quando bebo/saio” ou “comecei a fumar com os amigos” sejam relatos comuns, “preciso sair para fumar, já volto” é outro. O hábito de fumar proporciona isolamento social, ainda mais atualmente, em que o ato está restrito legalmente a locais específicos e geralmente afastados. Imagino que muitos não seriam hoje dependentes de nicotina se a droga estivesse disponível comercialmente apenas na forma de adesivos ou chicletes. Além disso, embora execrado pela maioria dos não-fumantes, o ato de fumar (em locais apropriados) é amplamente aceito socialmente – ninguém estranharia, por exemplo, alguém que se isolou momentaneamente para fumar durante o trabalho (bem diferente do caso do álcool).
    Mas esse fator estaria restrito ao início do hábito, pois, após a dependência estar instalada, a nicotina vence e o indivíduo vai “sair para fumar” mesmo que não queira, naquele momento, se isolar socialmente.
    É claro que esse raciocínio valeria também para pessoas que não gaguejam, mas que apresentam padrões de personalidade similares aos gagos que não aceitam a gagueira. Por exemplo, um indivíduo com dificuldade para tolerar ser portador de alguma diferença tenderia a se isolar mais, podendo empregar o hábito de fumar para esse fim.
    Mas e nos casos em que o tabagismo de pessoas que gaguejam está sim associado a situações de interação social? Daria para especular por outra esfera psicológica, pois fumar envolve justamente uma restrição momentânea da fala: ao sugar a fumaça do cigarro à cavidade bucal, ao inalá-la e ao exalá-la, o fumante não fala (i.e., não consegue ou pelo menos evita falar nessas três etapas). Ele pode inclusive aumentar a frequência dos tragos, mantendo assim sua “boca ocupada” (a meu ver, mais do que ao sorver bebida alcoólica aos goles), o que me faz lembrar do provérbio sobre não ser possível assobiar e chupar cana ao mesmo tempo.
    Minha impressão, portanto, é a de que existe sim a possibilidade dessa relação entre tabagismo e gagueira: uma pelo isolamento social e outra pela possibilidade do controle sobre a fala em interações sociais (a partir de pausas controladas, com um “silêncio justificado”). Especulativo demais, não?
    Será que esses mesmos fatores poderiam estar associados à dificuldade em se livrar da dependência nesses casos? Adesivos de nicotina são muito eficientes para tratar a dependência química, mas hoje está claro que esse vício é muito complexo, muitos ex-fumantes tendo recaídas após anos longe do tabagismo. No caso das pessoas que apresentam gagueira, seria interessante saber, por exemplo, se essas recaídas estariam associadas, de alguma forma, à fala (pelas frustrações relacionadas à fala, pelo isolamento social proporcionado pelo hábito, pelas pausas controladas em interações sociais, como evasiva, etc.).
    Já me desculpando pelo longo texto, termino aqui com uma passagem bem-humorada do filme “O Discurso do Rei” (2010) sobre o tema:
    Lionel Logue: “Please don’t smoke. I believe sucking cigarette smoke into your lungs will kill you.”
    George VI: “I need to relax. My physicians say it relaxes the throat.”
    Lionel Logue: “They’re idiots.”
    George VI: “They’ve all been knighted.”
    Lionel Logue: “Makes it official then.”

    • Sandra Merlo

      Oi, JM,

      Sim, lidar com a questão do álcool na clínica de gagueira nem sempre é fácil. Mas é um assunto que precisa ser abordado e discutido.

      Achei pertinente a sua observação de que o consumo de álcool pode aumentar em momentos em que a gagueira piora em razão da frustração e da angústia que a pessoa enfrenta. Nesses momentos, é importante que o paciente consiga se perguntar se poderia haver outra forma de enfrentar aquele momento, que não consumindo mais álcool. Se a frustração é pela piora da gagueira, o que poderia fazer a gagueira melhorar? Como poderia aprender a suportar melhor essas frustrações?

      Sobre o tabagismo, desconheço estudos relacionados com a gagueira. O que acontece na prática clínica é que fumantes apresentam déficits respiratórios, prejudicando a execução dos exercícios.

      Eu já ouvi relatos de pessoas com gagueira que fumam mais em situações de ansiedade (não apenas ansiedade em relação à fala). A impressão que elas têm, como você bem apontou, é que o cigarro “relaxa”. Se a nicotina é estimulante do SNC, seria interessante fazer um estudo neste sentido: avaliar a fluência antes e depois de fumar. Fica em aberto a questão de problemas éticos com um estudo assim (seria aprovado por um Comitê de Ética?).

      Não sei se o fumante experimenta tanto isolamento social (mas este é apenas um palpite, porque não sou fumante e não convivo com fumantes). Embora não seja mais permitido fumar em ambientes fechados, os fumantes costumam se reunir e interagir nos “fumódromos”.

      Muito interessante a sua hipótese de que o ato de fumar poderia ser utilizado para disfarçar a gagueira. Acho que nunca ouvi um relato assim, mas também nunca questionei meus pacientes fumantes sobre isso (eventualmente eles podem fazer isso de forma automática, sem se darem conta e, por isso, não relatam). Mas esta seria uma estratégia que não poderia ser utilizada em diversas situações (como reuniões e palestras).

      Bem humorada a lembrança do “Discurso do Rei”!

      Abs, Sandra