Gagueira e pressão subglótica

out 28, 2013 | por Sandra Merlo | Fisiologia, Gagueira, Respiração

Um estudo mostrou que adultos com gagueira apresentam grandes dificuldades para controlar a pressão subglótica durante a fala.

A pressão subglótica adequada é um fator imprescindível na produção da voz e da fluência.

Na expiração falada, o ar parte dos alvéolos e trafega pelos bronquíolos, brônquios e traqueia. Em seguida, a coluna de ar chega até a glote (a região compreendida entre as pregas vocais). É a essa coluna de ar logo abaixo da glote que se dá o nome de “pressão subglótica”. A pressão subglótica ocasiona a abdução das pregas vocais. A força de Bernoulli e as forças musculares e elásticas da laringe, por outro lado, ocasionam a adução das pregas vocais. A interação contínua entre as forças de abdução e de adução causa o movimento vibratório das pregas. Por isso a pressão subglótica é crucial: sem ela, não há voz, não há fala, não há fluência.

Mas não é qualquer pressão subglótica que causa a abdução das pregas vocais. A pressão precisa ser positiva e na quantidade adequada.

Para que a pressão seja positiva, é preciso que o fluxo de ar parta dos alvéolos e vá em direção ao meio externo: ou seja, é preciso expiração. Quando a pressão é negativa, significa que o fluxo de ar parte do meio externo e vai em direção aos alvéolos (inspiração). Com pressão subglótica negativa, a produção de voz não é possível.

A pressão também precisa ser na quantidade adequada. Se ela for muito baixa, não terá potência suficiente para ocasionar a abertura da glote. A pressão subglótica pode ser baixa devido ao pouco volume de ar inspirado (sobre alterações inspiratórias em pessoas com gagueira, veja o texto anterior desta série). A pressão subglótica também pode ser baixa devido à incoordenação da musculatura respiratória. É exatamente sobre este aspecto que trata este texto.

O fisiologista italiano Luciano Zocchi & colaboradores publicaram um artigo especificamente sobre o comportamento da pressão subglótica em pessoas com gagueira. Dez adultos com e cinco adultos sem gagueira participaram do estudo. Nenhum apresentava histórico de doenças respiratórias.

Para obtenção dos dados, foram introduzidos cateteres com balões no esôfago e no estômago dos sujeitos:

  • A pressão esofágica foi tida como equivalente da pressão subglótica.
  • A pressão gástrica foi tida como índice da contração da musculatura expiratória.
  • A pressão transdiafragmática foi obtida pela diferença da pressão gástrica pela esofágica. Esta pressão foi tida como o índice da contração do diafragma.

Além disso, a movimentação torácica e abdominal foi monitorada com cintas elásticas que possuíam sensores de movimento.

As medidas foram obtidas com os sujeitos na posição sentada. Eles foram solicitados a ler em voz alta e a participar de uma conversação.

A pressão subglótica é virtualmente igual à pressão alveolar (ocorre uma pequena perda de pressão devido à resistência das passagens aéreas, mas considera-se desprezível). Entretanto, a pressão esofágica também é tida como uma boa aproximação para a pressão subglótica, principalmente durante a expiração.

 

Sujeitos sem gagueira

Os resultados indicaram que, nos sujeitos sem gagueira, a pressão subglótica foi de aproximadamente -4 cmH2O durante a inspiração falada. No início da expiração falada, a pressão subglótica subiu para +7 cmH2O. Durante a expiração falada, a pressão subglótica sofreu pequenas oscilações. Essas pequenas oscilações são esperadas, porque a pressão subglótica também é influenciada pela pressão intraoral, que varia dependendo do fone que está sendo articulado.

Houve picos de pressão transdiafragmática apenas durante a inspiração de repouso, mas não durante a inspiração falada. Ou seja, o diafragma atuou como músculo inspiratório apenas no repouso e não na fala.

Também houve contração intensa da musculatura torácica na respiração falada, mas não na respiração de repouso.

 

Sujeitos com gagueira

Nos sujeitos com gagueira, o padrão foi completamente distinto. Durante os períodos de fluência, a pressão subglótica se manteve positiva, mas variou intensamente.

Os períodos de gagueira foram consistentemente associados à pressão subglótica negativa, ou seja, ao estabelecimento de um padrão inspiratório de movimento. A pressão subglótica se tornou negativa devido aos seguintes fatores:

  • Utilização do diafragma como músculo inspiratório para a fala. Neste caso, o volume de ar inspirado foi pequeno, não sendo suficiente para elevar a pressão subglótica em níveis adequados.
  • Contração persistente do diafragma. Neste caso, os sujeitos realizaram a inspiração falada com o diafragma e ele permaneceu contraído mesmo após o término da inspiração.
  • Contração persistente da musculatura inspiratória torácica. Também neste caso os músculos inspiratórios continuaram persistentemente contraídos após o término da inspiração.
  • Ausência de contração da musculatura expiratória ao final da inspiração. Neste caso, a inspiração ocorreu e a musculatura inspiratória relaxou, mas a musculatura expiratória não contraiu.

Também houve momentos em que a pressão subglótica foi excessiva devido à contração intensa da musculatura torácica expiratória, o que também interrompeu a fala.

Resumindo: no estudo realizado por Zocchi & colaboradores, todas as dez pessoas com gagueira apresentaram dificuldades para controlar a pressão subglótica. Primeiro, porque o diafragma atuou como músculo inspiratório. Ou seja, o ganho evolutivo do Homo sapiens para fazer a inspiração falada com os músculos intercostais, parece não ser o padrão predominante em pessoas com gagueira (sobre isso, veja o primeiro texto desta série). Segundo, o padrão mais frequente que originou pressão subglótica negativa foi a contração persistente do diafragma após a inspiração. Com o diafragma ativo, a pressão subglótica não pode subir para níveis adequados, ocasionando bloqueios logo no início do enunciado.

 

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