Respiração e linguagem

out 07, 2013 | por Sandra Merlo | Gagueira, Respiração

O diálogo modifica substancialmente o padrão respiratório em relação ao monólogo.

Este texto aborda a influência de dois outros fatores linguísticos na dinâmica respiratória: a organização prévia da macroestrutura do texto falado e a conversação.

 

Organização prévia da macroestrutura do texto falado e respiração

A fonoaudióloga Heather Mitchell & colaboradores publicaram um artigo sobre o impacto da preparação do texto falado na dinâmica respiratória. A pergunta norteadora do estudo foi: preparar a macroestrutura de um texto falado antes de sua emissão afeta, de alguma maneira, os volumes pulmonares inspirados e expirados? Embora os autores não tenham formulado nenhuma hipótese explicitamente, uma possibilidade é que um texto preparado antecipadamente produza inspirações e expirações mais profundas, compatível com a maior fluência das informações textuais.

Vinte mulheres jovens, entre 20 e 30 anos, participaram do estudo. Os sujeitos não apresentavam distúrbios de audição, de fala ou de respiração. Foram utilizados magnetômetros para monitorar a movimentação torácica e abdominal durante a respiração. Os sujeitos permaneceram sentados durante o experimento.

Foram propostas duas atividades de fala para os sujeitos. Na primeira, eles deveriam falar espontaneamente sobre um tema. Na segunda, deveriam preparar um esquema escrito contendo os tópicos mais importantes sobre aquele mesmo tema.

Foram avaliadas diversas variáveis linguísticas:

  • Número de informações por texto;
  • Número de sílabas por ciclo respiratório;
  • Taxa de elocução por ciclo respiratório;
  • Volume pulmonar empregado por sílaba.

Também foram avaliadas diversas variáveis respiratórias (em cada ciclo):

  • Volume pulmonar inicial e final;
  • Volume inicial e final da caixa torácica;
  • Volume inicial e final do abdômen;
  • Duração inspiratória e expiratória.

Confirmando estudos anteriores, a respiração durante a fala envolveu maior movimentação torácica e menor movimentação abdominal em comparação com a respiração de repouso.

Os textos preparados antecipadamente realmente apresentaram maior número de informações, maior número de sílabas por ciclo respiratório, maior taxa de elocução e menor volume pulmonar empregado por sílaba em comparação aos textos espontâneos. Ou seja, os textos cuja macroestrutura foi preparada antecipadamente foram mais fluentes em comparação aos não preparados.

Foi feita análise adicional das pausas silenciosas produzidas durante as expirações. Foram identificados dois tipos de pausa: associadas ao fluxo expiratório e associadas à interrupção do fluxo expiratório (ou seja, pausas com e sem movimentação torácica e/ou abdominal, respectivamente). Ambos os tipos de pausa apresentaram duração média próxima de 600 ms. Entretanto, as pausas associadas ao fluxo expiratório ocorreram o dobro de vezes em relação às pausas associadas à interrupção do fluxo expiratório. O aumento da duração total das pausas silenciosas durante os textos não preparados sinalizaram a necessidade de tempo para seleção e estruturação das informações textuais.

Por outro lado, das doze variáveis respiratórias analisadas, apenas uma apresentou diferença estatística entre os textos preparados e os espontâneos: o volume abdominal final foi 5% menor na condição espontânea. Tendo em vista que apenas uma das doze variáveis apresentou diferença estatística e que esta diferença foi pequena em magnitude (apenas 5%), os autores consideraram a possibilidade de erro estatístico do tipo I e desprezaram o achado.

Assim, concluiu-se que a organização prévia da macroestrutura do texto falado afeta a fluência, mas não a dinâmica respiratória.

 

Conversação e respiração

O fonoaudiólogo David McFarland publicou um artigo sobre a dinâmica respiratória em conversações. A conversação é um dos tipos textuais e sua característica principal é o fato de o texto falado ser formulado de forma conjunta e alternada entre os participantes.

Vinte mulheres jovens (entre 21 e 25 anos) participaram do estudo. Nenhuma apresentava histórico de distúrbios de audição, fala ou respiração. Nenhuma era fumante. A dinâmica respiratória foi avaliada através de manômetros fixados em cintas elásticas: uma cinta foi posicionada no tórax e outra no abdômen.

A dinâmica respiratória foi avaliada em diversas tarefas:

  • Respiração de repouso;
  • Leitura em voz alta;
  • Monólogo;
  • Leitura em voz alta em dupla;
  • Conversação espontânea em dupla.

A Figura 1 do artigo ilustra muito didaticamente as diferenças de movimentação torácica na respiração de repouso, na leitura em voz alta e no monólogo [devido a questões de direito autoral, a figura não pode ser reproduzida aqui]. A duração e a amplitude da inspiração e da expiração são bastante estáveis na respiração de repouso e bastante variáveis na leitura em voz alta e no monólogo.

A inspiração no repouso foi significativamente mais longa em relação à leitura em voz alta e ao monólogo. Por outro lado, a expiração no repouso foi muito mais curta em relação à leitura em voz alta e ao monólogo. Esses contrastes de duração entre inspiração e expiração são característicos da fala.

Na leitura em voz alta em dupla, os sujeitos alternaram a leitura de pequenos trechos. Assim, enquanto um lia, o outro ouvia. A simples escuta da leitura em voz alta alterou o padrão respiratório de repouso, fazendo com que a inspiração diminuísse e a expiração aumentasse em duração. Essas diferenças foram estatísticas.

Na conversação em dupla, os sujeitos geralmente alternaram suas falas, embora tenha havido fala em uníssono em alguns instantes. A sincronia dos movimentos respiratórios foi impressionante: o sujeito que estava falando apresentava inspirações curtas e expirações longas e o sujeito que estava ouvindo também! Não havia mais o padrão respiratório típico do repouso (inspiração e expiração com a mesma duração) no sujeito que não estava falando. Ou seja, o padrão respiratório do ouvinte espelhou o padrão respiratório do falante.

O autor interpretou esses achados como evidência de sincronia entre os participantes e também como evidência de que o ouvinte permanece em um estado respiratório que predispõe à fala, mesmo quando ele não é o falante.

Ainda durante a conversação em dupla, foram avaliados os três ciclos respiratórios anteriores e posteriores à troca de turno. A primeira inspiração do falante logo após a troca de turno foi significativamente mais longa em relação às demais inspirações. Este achado pode, inclusive, ser verificado em situações cotidianas: em alguns momentos, o participante que assume o turno inspira de forma claramente mais longa e intensa antes de iniciar sua fala. Este destaque respiratório pode ser mais um dos recursos que o falante utiliza para marcar sua tomada de turno.

 

Como visto neste e em outros textos, há diversos fatores linguísticos que afetam a dinâmica respiratória (como a extensão do enunciado, a estrutura sintática e a conversação) e outros que não afetam (como o efeito Lombard e a organização prévia da macroestrutura textual).

 

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