Gagueira, respiração e tratamento

nov 04, 2013 | por Sandra Merlo | Gagueira, Respiração

A melhora da respiração pode contribuir para a melhora da fluência de pessoas com gagueira.

Neste texto, serão discutidos dois estudos que abordam a terapêutica respiratória na gagueira.

 

Melhora do suporte respiratório e melhora da fluência

O fonoaudiólogo Stephen Tasko e colaboradores publicaram um artigo sobre mudanças acústicas, cinemáticas orofaciais e respiratórias antes e depois de um tratamento comportamental para gagueira.

Participaram do estudo 35 adultos (33 homens e 2 mulheres), com idade média de 24 anos. Todos os sujeitos passaram por um tratamento intensivo de um mês. Foi utilizado o pacote CAFET (“Computer Aided Fluency Establishment Trainer”), que inclui microfone, sensores respiratórios e software. O software fornece feedback visual em seis áreas de interesse:

  • Movimentação respiratória: torácica ou abdominal;
  • Suporte respiratório: adequado ou insuficiente;
  • Fluxo aéreo: contínuo ou interrompido;
  • Expiração prévia à produção vocal: presente ou ausente;
  • Ataque vocal: brusco ou suave;
  • Fonação: contínua ou interrompida.

O tratamento é organizado em diversas etapas, as quais vão sendo progressivamente mais complexas. O tempo total de treinamento é de, no mínimo, 25 horas.

Foram feitas diversas medidas antes e depois do tratamento: número de sílabas gaguejadas, sílabas por segundo, naturalidade da fala, medidas cinemáticas orofaciais (lábio superior, lábio inferior e corpo da língua) e respiração (intensidade e duração).

A seguir, serão relatados apenas os resultados referentes à quantificação da gagueira e à dinâmica respiratória.

A gagueira dos sujeitos reduziu significativamente após o tratamento. A média de melhora foi de 60%, com variação entre 20 e 100%.

Em relação à respiração, houve diversas mudanças significativas antes e depois do tratamento:

  • Aumento da duração da inspiração falada: de 0,5 para 1 s.
  • Aumento da duração da expiração falada: de 2,7 para 3,3 s.
  • Maior uso da capacidade vital na inspiração e na expiração falada: de 15 para 20%.
  • Redução da taxa inspiratória: de 26 para 21% da capacidade vital por segundo.

Ou seja, após o tratamento, os sujeitos ampliaram a movimentação respiratória, o que aumentou a duração da inspiração e da expiração, aumentou o volume gasoso inspirado e expirado e reduziu a taxa inspiratória. Assim, os sujeitos passaram a ter um maior suporte respiratório para a fala.

Os autores aplicaram uma técnica estatística específica aos dados (análise de regressão) para saber exatamente quais mudanças fisiológicas foram responsáveis pela melhora da fluência. Três variáveis responderam pela maior parte da variância dos dados: intensidade respiratória, taxa respiratória e duração do movimento do lábio inferior. Ou seja, os sujeitos que apresentaram maior redução no número de sílabas gaguejadas após o tratamento foram aqueles que mais ampliaram a capacidade respiratória, que reduziram o número de inspirações por minuto e que aumentaram a duração dos movimentos do lábio inferior.

O estudo de Stephen Tasko & colaboradores é importante, porque evidencia não apenas a mudança na dinâmica respiratória após um tratamento fonoaudiológico para gagueira, mas que essa mudança está de fato relacionada com a melhora da fluência.

 

Método de regulação respiratória

Os médicos Knut Waterloo e Gunnar Gotestam publicaram um artigo sobre o método de regulação respiratória como terapia da gagueira. Ao todo, há dez publicações sobre este método listadas no PubMed.

Participaram do estudo 32 adultos com gagueira, com idade média de 33 anos. Metade dos sujeitos fez parte do grupo de tratamento e metade do grupo controle. A fala foi avaliada através de conversação espontânea, leitura em voz alta e ligação telefônica. Foram colhidas diversas amostras: um mês antes do tratamento, duas semanas antes do tratamento, imediatamente após o tratamento e também dois, três e oito meses após o tratamento.

Foi realizada uma sessão de duas a três horas de tratamento. O método apresenta doze passos. Somente será descrita a estratégia terapêutica principal, a qual consiste no seguinte: o sujeito deve interromper sua fala quando ocorre um episódio de gagueira, fazer uma inspiração profunda, relaxar a musculatura da caixa torácica e da laringe, formular mentalmente o enunciado a ser produzido, iniciar a fala enfatizando o início do enunciado e falar enunciados curtos. Os participantes deveriam praticar a estratégia ensinada no dia-a-dia.

Não houve diferença significativa entre o número de palavras gaguejadas entre o grupo de tratamento e o grupo controle na avaliação inicial. Por outro lado, após 8 meses de tratamento, houve diferenças significativas entre os dois grupos em todas as situações de fala analisadas:

  • Na conversação, o grupo controle apresentou 18% de palavras gaguejadas, enquanto o grupo de tratamento apresentou 5% de palavras gaguejadas, em média.
  • Na leitura em voz alta, o grupo controle apresentou 19% de palavras gaguejadas, enquanto o grupo de tratamento apresentou 7% de palavras gaguejadas, em média.
  • Na ligação telefônica, o grupo controle apresentou 20% de palavras gaguejadas, enquanto o grupo de tratamento apresentou 6% de palavras gaguejadas, em média.

O tratamento surtiu efeito para 12 participantes do grupo de tratamento. Quatro participantes não apresentaram melhora.

Os resultados do método parecem bastante promissores. Entretanto, a descrição dos procedimentos é insuficiente para sua aplicação clínica ou replicação científica. Por exemplo:

  • “Fazer uma inspiração profunda”: o método prevê inspiração com movimentação somente da caixa torácica, somente do abdômen ou de ambos? Não há especificação. Em textos anteriores desta série, foram debatidos estudos que mostraram que o padrão mais habitual de inspiração em falantes sem distúrbios de comunicação é com movimentação dos intercostais. Pessoas com gagueira, por outro lado, tendem a inspirar utilizando os intercostais e o diafragma.
  • “Relaxar a musculatura da caixa torácica e da laringe”: esta é uma instrução imprecisa, porque a inspiração automaticamente implica contração de alguns músculos e relaxamento de outros. Em relação à caixa torácica, precisa haver contração dos intercostais externos e relaxamento dos intercostais internos; se toda a musculatura da caixa torácica estiver relaxada, não vai haver inspiração. Em relação à laringe, deve haver contração do cricoaritenoideo posterior, caso contrário não vai haver abertura da glote. Esta instrução, portanto, é altamente imprecisa.
  • “Iniciar a fala enfatizando o início do enunciado”: não há especificação sobre o que seria esta ênfase inicial (alongamento fônico, aumento de volume vocal, aumento de frequência vocal, mudança de qualidade vocal?). Em termos linguísticos, esta instrução não faz sentido. A regra é que o foco linguístico recaia em uma palavra ou expressão relevante no contexto do enunciado. Esta palavra ou expressão pode ou não estar em posição inicial. O uso indiscriminado de foco linguístico sempre em início de enunciado vai conferir um alto grau de artificialidade para a fala.

O método de regulação respiratória é o único método comportamental que foca unicamente o controle da respiração para tratar a gagueira. Os resultados dos estudos publicados são promissores, mas é necessário descrever com maiores detalhes os procedimentos clínicos, adequando-os às recentes descobertas científicas sobre respiração, fala e gagueira.

 

2 Comments »

  1. Eu sou gago, e muitas vezes sinto ao falar uma pausa na minha respiração, não consigo falar e respirar um pouco, eu fico tão concentrado ao falar e não gaguejar q falta o ar. Sinto q minha respiração é diretamente ligada a gagueira.

    Comentário by hugo — 29 de junho de 2015 @ 12:30

  2. Tenho gagueira leve que acontece quando eu fico nervosa, e sinto que tenho muita dificuldade pra respirar, é como se eu me esquecesse de respirar ao falar

    Comentário by Barbara Kriss — 1 de outubro de 2015 @ 00:29

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