Gagueira e infecções (I)

fev 03, 2014 | por Sandra Merlo | Gagueira, Infecções

Ilustração das bactérias do gênero estreptococos. Um estudo relacionou a ocorrência de reação autoimune a estreptococos do grupo A em um caso de gagueira infantil.

Estou dando início a uma série sobre gagueira e infecções. Serão relatados casos de infecções bacterianas (estreptococos do grupo A e Helicobacter pylori) e de infecção viral (rotavírus), que deflagraram reações autoimunes suspeitas de ocasionar gagueira.

 

Estreptococos do grupo A

O psiquiatra Gerald Maguire & colaboradores relataram o caso de um menino de seis anos que começou a apresentar gagueira após reação autoimune a uma infecção estreptocócica [veja a carta ao editor na íntegra aqui].

A criança foi levada ao pediatra devido à dor de garganta, febre e mal-estar generalizado. Foi realizado teste laboratorial para verificar a presença de anticorpos relativos aos estreptococos do grupo A. O resultado foi positivo. Os pais preferiram não medicar o filho com antibióticos. Um mês depois, a criança começou a gaguejar. Três meses depois, também começou a apresentar movimentos involuntários na face e na cabeça. Não havia histórico de gagueira na família.

Quase seis meses depois, ainda havia anticorpos nas amostras de sangue colhidas. A terapia por antibióticos foi finalmente iniciada e teve duração de dez dias. Em seguida, foram feitos três testes laboratoriais, não tendo sido mais detectados anticorpos. Em quinze dias, a gagueira desapareceu e assim continuou até a escrita do artigo.

Em meu consultório, também já atendi dois casos (uma moça e um homem) que passaram a apresentar gagueira após infecção por estreptococos do grupo A. Ambos tiveram diagnóstico de febre reumática e foram tratados com antibióticos por diversos anos. No caso da moça, os sintomas persistentes foram coreia de Sydenham, disartria hipercinética e gagueira. No caso do homem, o sintoma persistente foi a gagueira. Nenhum dos dois tinha familiares com gagueira.

São todos casos que levantam a possibilidade de a gagueira ser causada por uma resposta autoimune. A infecção bacteriana faz com que o sistema imunológico responda produzindo anticorpos. Esses mesmos anticorpos às vezes cometem um erro de identificação e atacam determinadas células do corpo. Se o erro de identificação ocorrer em relação aos neurônios dos núcleos da base, diversos sintomas podem surgir: coreia, tiques, distonia, tremor, distúrbio obsessivo-compulsivo, mutismo e, agora se junta à lista, gagueira. O diagnóstico de PANDAS (“Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infection”) refere-se especificamente ao distúrbio obsessivo-compulsivo ou aos tiques iniciados na infância e causados por reação autoimune a uma infecção por estreptococos do grupo A.

Desta forma, se uma criança começa a gaguejar de um a seis meses após ter passado por uma dor de garganta (faringite ou tonsilite), é possível que a gagueira seja um sintoma autoimune. Nestes casos, os exames laboratoriais que detectam os anticorpos antiestreptolosina O (ALSO) e antidesoxiribonuclease B (DNASE B), solicitados pelo médico pediatra, podem elucidar a questão. Caso os exames apresentem resultados positivos, é iniciada a terapia com antibióticos.

 

Pequeno glossário

Antígeno: qualquer molécula capaz de deflagrar uma resposta do sistema imunológico. São os linfócitos (T ou B) que detectam os antígenos. Por exemplo, no caso dos estreptococos do grupo A, os antígenos detectados são a estreptolisina O e a desoxiribonuclease B, que são toxinas produzidas por essas bactérias.

Anticorpo: é uma proteína produzida pelos linfócitos B para neutralizar o antígeno detectado. A relação é de um para um, ou seja, cada antígeno tem seu anticorpo específico.

Estreptococos do grupo A: são bactérias em forma de cocos que podem provocar infecções, como faringite e tonsilite (“dor de garganta”). Um exemplo é o Streptococcus pyogenes. Complicações deflagradas por essas infecções, como o desenvolvimento de febre reumática ou PANDAS, são raras.

Febre reumática: doença autoimune caracterizada por dor e inflamação nas articulações (poliartrite), dor no peito, cansaço e falta de ar (cardite), manchas avermelhadas na pele (eritema marginado), pequenos caroços abaixo da pele (nódulos subcutâneos) e/ou movimentos involuntários no corpo (coreia de Sydenham). A sintomatologia depende de quais tecidos foram atacados pelos anticorpos produzidos pelo sistema imunológico.

PANDAS: sigla de “Pediatric Autoimmune Neuropsychiatric Disorders Associated with Streptococcal Infection”, ou seja, são distúrbios neuropsiquiátricos (tiques ou transtorno obsessivo-compulsivo), que iniciaram na infância e que têm origem autoimune. A resposta autoimune é deflagrada por uma infecção estreptocócica e atinge os núcleos da base.