Eletroterapia e gagueira

maio 12, 2014 | por Sandra Merlo | Eletroterapia, Gagueira

Man with problems in the neck and in the spine massage makes electrostimulator.Praticamente inexistem estudos sobre gagueira e eletroterapia. Encontrei uma referência do século XIX e outra do século XXI. Vamos a elas!

 

Considerações históricas sobre eletroterapia e gagueira

Robert Remak foi um embriologista, fisiologista e neurologista que viveu no século XIX. A sua tese de doutorado apresentou uma contribuição até então inédita: ele demonstrou a existência de fibras neurais desmielinizadas (as quais foram posteriormente chamadas de “fibras de Remak”) e que a coloração acinzentada dessas fibras devia-se justamente à ausência de bainha de mielina. Ele também foi o primeiro cientista a demonstrar que o córtex cerebral é constituído por seis camadas. Também estudou intensamente a atividade elétrica dos nervos.

Ele também fez descobertas importantes na embriologia. Demonstrou a existência de três camadas no embrião (hoje chamadas de ectoderme, mesoderme e endodorme) e que as novas células são geradas pela divisão sucessiva das células existentes.

Na sua prática clínica como neurologista, fazia amplo uso da eletroterapia, tão em voga na época. Ele considerava essencial estimular a junção neuromuscular e não o músculo em si. Utilizava corrente galvânica (contínua). Chegou inclusive a construir um aparelho de eletroterapia, o qual ficou conhecido como “aparelho de Remak”.

Em 1858, Remak publicou o livro “Galvanotherapie der nerven- und muskelkrankheiten”, escrito em alemão (disponível na íntegra aqui).

Neste livro, Remak refere ter tratado mais de 700 pacientes com eletroterapia. Ele defendeu que a eletroterapia com corrente galvânica era adequada para tratar as seguintes doenças: reumatismo agudo ou crônico; hemiplegias; paraplegias; atrofia muscular; coreia; gagueira; tremores em membros superiores ou inferiores; câimbra do escrivão (ver pág. 243 do livro).

Na pág. 219, Remak cita que um de seus pacientes foi um menino de 12 anos com gagueira. Este menino havia feito treze tratamentos, mas sua fluência piorou continuamente. Em 1857, o menino fez o tratamento eletroterápico proposto por Remak. Teria havido cura da gagueira. Este não foi o único paciente com gagueira tratado com eletroterapia por Remak. Ele afirma ter tratado diversos casos (ver pág. 271), com resultados favoráveis.

 

Eletroterapia e gagueira na atualidade

A fonoaudióloga Clarice Tomazzeti publicou uma dissertação de mestrado sobre o uso da eletroterapia na gagueira (resumo disponível aqui).

Cinco homens com gagueira, entre 15 e 56 anos, participaram do estudo. Ao todo, foram realizadas 20 sessões de terapia. Todos os pacientes foram atendidos individualmente, duas vezes por semana.

O Grupo 1 foi composto por três pacientes. Este grupo recebeu terapia combinada: o programa de terapia foi associado à eletroterapia. A sessão de terapia teve duração de 45 minutos: 15 minutos para eletroterapia e 30 minutos para exercícios.

O Grupo 2 foi composto por dois pacientes. Este grupo recebeu apenas o programa de terapia, sem eletroterapia. A sessão de terapia teve duração de 30 minutos.

O programa de terapia foi constituído por três partes:

  1. A primeira parte consistiu na audição de trechos de fala previamente gravados para a identificação explícita dos episódios de gagueira e das estratégias utilizadas para facilitar a fala. Foram destinadas cinco sessões para esta etapa.
  2. A segunda parte consistiu na mudança de comportamentos (por exemplo, melhorar o contato ocular durante a fala) e no enfrentamento de situações. Foram destinadas cinco sessões para esta etapa.
  3. A terceira parte consistiu na prática de técnicas de fluência (bounce, cancelamento, contato suave, prolongamento, gagueira voluntária e pull-out). Foram destinadas dez sessões para esta etapa.

Foi utilizada eletroterapia do tipo TENS (transcutaneous electrical nerve stimulation). Utilizou-se frequência de 100Hz e duração de pulso de 200μs, na intensidade mais alta tolerada por cada paciente. Foram estimulados dois músculos por vez, durante cinco minutos: orbicular da boca e masseter; bucinador e mentoniano; esternocleidomastoideo e trapézio superior. O objetivo com o uso da TENS era a analgesia, o aumento da circulação sanguínea e o relaxamento muscular.

Os resultados foram os seguintes:

  • Grupo 1, sujeito 1: 5% e 9% de sílabas gaguejadas pré e pós-tratamento, respectivamente.
  • Grupo 1, sujeito 2: 10% e 7% de sílabas gaguejadas pré e pós-tratamento, respectivamente.
  • Grupo 1, sujeito 3: 25% e 7% de sílabas gaguejadas pré e pós-tratamento, respectivamente.
  • Grupo 2, sujeito 4: 10% e 5% de sílabas gaguejadas pré e pós-tratamento, respectivamente.
  • Grupo 2, sujeito 5: 14% e 8% de sílabas gaguejadas pré e pós-tratamento, respectivamente.

Todos os sujeitos melhoraram com a terapia, com exceção do sujeito 1. Devido ao número reduzido de sujeitos, não é possível concluir que a terapia combinada foi superior à terapia convencional.

Os três pacientes que receberam eletroterapia referiram sensação de bem-estar com o procedimento. Também referiram sentir a fala mais solta e terem mais facilidade para controlar a fala após o procedimento.

 

A eletroterapia não invasiva pode ser mais um recurso terapêutico para o manejo da gagueira. Entretanto, são necessários mais estudos para comprovar sua eficácia.

 

 

  • JM

    Muito interessante, Sandra. Tenho algumas perguntas: 1) a princípio, a eletroterapia poderia prover mais uma forma de obter relaxamento muscular, por isso poderia resultar em uma melhora potencial para a gagueira? 2) Qual seria o intervalo de tempo aproximado do relaxamento muscular propiciado por este recurso? Seriam aproximadamente 3 horas como nos exercícios de relaxamento dos músculos da fala? 3) Há como prever efeitos a longo prazo (pelo menos teoricamente)? Por exemplo, sessões continuadas de eletroterapia poderiam resultar em relaxamento muscular por um tempo prolongado? 4) A eletroterapia já pode ser utilizada clinicamente como um recurso terapêutico adicional para problemas de fala, isto é, o fonoaudiólogo está autorizado a aplicar este recurso em seus pacientes?

    Esclareço que não espero respostas conclusivas, mesmo porque você já deixou claro que mais estudos são necessários para comprovar a eficácia da eletroterapia no caso da gagueira. O objetivo dessas perguntas é apenas estimular uma discussão sobre o tema. Desde já agradeço a atenção e a parabenizo pelo excelente texto. Gostei particularmente da revisão histórica e do resgate do trabalho de Remak, inclusive com um relato de “cura” da gagueira por parte do autor. Creio que, infelizmente, não haja muitos detalhes clínicos deste caso no trabalho original, o que impede uma avaliação precisa do conjunto de fatores que potencialmente levaram à melhora da gagueira do paciente de 12 anos. Com tudo o que você já descreveu e discutiu neste blog com relação à complexidade da gagueira, é difícil imaginar que apenas o recurso da eletroterapia tenha resultado na reversão completa do quadro do paciente.

    • Sandra Merlo

      Olá, JM,

      Muito interessante o relato do trabalho do Robert Remak, não? Ele não tratou apenas esse menino de 12 anos, mas diversas pessoas com gagueira. Tanto que, das doenças e distúrbios para os quais ele prescrevia eletroterapia, a gagueira é explicitamente citada. Isso, a meu ver, indica que ele teve uma experiência significativa com gagueira. Tentei encontrar detalhes sobre o trabalho dele com gagueira (posição dos eletrodos, frequência do pulso e intensidade da corrente elétrica), mas não consegui. Deve estar no livro escrito por ele em 1858, mas o fato de ser em alemão dificulta muito.

      Vamos às questões:

      1) Dependendo da regulagem do aparelho, a eletroterapia pode tanto propiciar fortalecimento, quanto relaxamento muscular. Na gagueira, a tensão muscular costuma ser mais problemática do que a flacidez muscular, mas, a rigor, as duas condições estão presentes (porque toda vez que há músculos muito tensos, seus antagonistas estão muito flácidos).

      2) Em princípio, o relaxamento induzido pela eletroterapia deve ser mais duradouro do que aquele obtido pela prática de exercícios. Por exemplo, no texto número IV, os pacientes do Bruno Guimarães relataram relaxamento por 9h.

      3) Teoricamente, com a aplicação de longo prazo, o condicionamento da musculatura ficaria cada vez melhor. Em termos moleculares, isso implica na modificação estrutural dos filamentos proteicos da fibra muscular, principalmente na cadeia pesada das moléculas de miosina. Há estudos que demonstram que a estimulação elétrica de baixa frequência promove a substituição gradual de moléculas tipo II de miosina (que geram maior tensão) por moléculas tipo I (que geram menos tensão).

      4) A eletroterapia é um recurso bastante comum na fisioterapia. Na fonoaudiologia, vem sendo utilizada mais recentemente. Nos EUA, um aparelho de eletroterapia específico para tratar disfagia (distúrbio de deglutição) foi aprovado pelo FDA e vem sendo utilizado pelos fonoaudiólogos. No Brasil, o Bruno Guimarães utiliza eletroterapia para distúrbios de voz há mais de 10 anos. Em gagueira, especificamente, só encontrei referência da dissertação de 2004 da Clarice Tomazzetti. Em termos de amparo legal, o fonoaudiólogo pode utilizar apenas técnicas não invasivas. Então, a eletroterapia não invasiva (que utiliza eletrodos posicionados sobre a pele) pode ser utilizada clinicamente, desde que observadas as contraindicações.

      Abs, Sandra