Eletroterapia e voz (II)

maio 05, 2014 | por Sandra Merlo | Eletroterapia, Gagueira

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Neste texto, vamos abordar mais um pouco de eletroterapia aplicada à voz. Muitas pessoas com gagueira apresentam bloqueios em nível laríngeo (principalmente aquelas que referem gaguejar mais em palavras iniciadas por vogais). Por isso, os estudos de eletroterapia em distúrbios da voz podem oferecer aprendizados importantes na terapia de gagueira.

 

A fonoaudióloga Lisa LaGorio e colaboradores publicaram um artigo sobre o uso da eletroterapia não invasiva para tratar arqueamento de pregas vocais (veja artigo completo aqui).

Sete pacientes, quatro homens e três mulheres, participaram do estudo. A idade dos pacientes variou entre 58 e 81 anos. Todos os pacientes apresentavam disfonia por pelo menos três meses. A disfonia era causada por arqueamento bilateral de pregas vocais devido à presbifonia. A avaliação pré e pós-terapia incluiu análise acústica da voz, estroboscopia laríngea e espirometria pulmonar.

As sessões tiveram uma hora de duração. Foram feitas cinco dias por semana, durante três semanas. Ao todo, portanto, foram 15 sessões.

A terapia fonoaudiológica aliou exercícios convencionais e eletroterapia não invasiva. A estimulação eletroterapêutica foi aplicada durante todo o tempo de sessão em conjunto com os exercícios.

Foram utilizados dois pares de eletrodos. Um par foi posicionado na linha média das cartilagens tireoidea e cricóidea. O outro par foi posicionado logo abaixo dos cornos posteriores do osso hioide. Foram estimulados os músculos infra-hióideos, portanto.

A amplitude da corrente elétrica foi determinada pela estroboscopia. Iniciou-se em zero e foram feitos incrementos até observar melhora no fechamento glótico ou na onda vibratória. Foi esta a amplitude utilizada no tratamento. A média de amplitude foi de 10mA.

Após as sessões de terapia, os resultados indicaram:

  • Análise acústica: aumento no tempo máximo de fonação para a vogal [i].
  • Estroboscopia: melhora no fechamento glótico e diminuição da compressão supraglótica.
  • Espirometria: manutenção do volume expiratório máximo.

Tendo em vista que o volume expiratório máximo não apresentou mudanças significativas pré e pós-terapia, concluiu-se que o aumento do tempo máximo de fonação deveu-se à maior competência glótica e não ao aumento da capacidade expiratória. A maior compressão supraglótica é uma compensação da insuficiência glótica. Com a melhora da competência glótica, a compressão supraglótica foi diminuída.

O estudo de Lisa LaGorio e colaboradores sugere que a combinação de exercícios fonoaudiológicos com eletroterapia não invasiva fornece bons resultados terapêuticos.

Também já foi demonstrada a superioridade da terapia que alia exercícios vocais e eletroterapia em comparação à terapia que utiliza apenas exercícios vocais para tratar paresia laríngea unilateral. Veja resumo do artigo aqui.

 

A eletroterapia não invasiva também já foi aplicada em pessoas sem queixas de voz ou fala. A fonoaudióloga Linda Fowler e colaboradores publicaram um artigo sobre o tema. Um artigo similar ao que será relatado a seguir e que pode ser lido na íntegra, pode ser encontrado aqui.

Dez homens e dez mulheres entre 20 e 53 anos participaram do estudo. Nenhum deles apresentava problemas de voz ou fala atuais ou pregressos.

Um par de eletrodos foi posicionado horizontalmente logo acima do osso hioide. O outro par foi posicionado lateralmente à cartilagem tireoide. A intensidade da estimulação foi a mínima possível: apenas o necessário para eliciar contração muscular visível.

Os participantes receberam eletroterapia durante uma hora. Houve apenas uma sessão. Durante esta sessão, os participantes puderam conversar, comer e beber.

Os participantes foram solicitados a produzir a vogal [a] de forma sustentada e a ler um pequeno trecho antes e depois da aplicação da eletroterapia. Foram avaliadas a frequência (Hz) e a intensidade (dB) vocais.

Os resultados indicaram não ter havido diferenças significativas de frequência e intensidade vocais pré e pós-eletroterapia. Entretanto, alguns participantes apresentaram mudanças evidentes na frequência da voz.

O relato dos sujeitos sobre a eletroterapia foi bastante variável:

  • Alguns relataram se sentirem muito bem após a eletroterapia: a voz parecia aquecida, mais clara, mais fácil ou os músculos do pescoço pareciam mais relaxados. Foram estes os participantes que apresentaram mudanças de frequência vocal após a sessão.
  • Outros relataram cansaço vocal após a eletroterapia: a voz parecia presa ou os músculos do pescoço pareciam mais contraídos.
  • Ainda outros apresentaram relatos compatíveis com lesão das células musculares: os músculos do pescoço pareciam doloridos e sensíveis.

Uma crítica que se pode fazer ao estudo de Fowler e colaboradores é o fato de ter havido estimulação simultânea de músculos supra e infra-hióideos, os quais têm funções opostas. Além do fato de ter sido uma sessão bastante longa de estimulação em sujeitos que nunca haviam recebido eletroterapia.

 

Os dois estudos brasileiros citados no texto anterior desta série obtiveram melhores resultados em comparação aos dois estudos internacionais citados neste texto. Todos os estudos focaram a voz e lidaram com adultos. Uma diferença marcante entre os estudos é a configuração dos parâmetros de estimulação elétrica transcutânea: os estudos brasileiros utilizaram frequência e duração de pulso bem menores em relação aos estudos internacionais (10Hz e 200/300µs versus 80Hz e 700µs, respectivamente). Talvez esteja aí a explicação dos melhores resultados.

Enfim, são necessários mais estudos para consolidar o uso da eletroterapia não invasiva nos distúrbios da voz. Entretanto, os resultados disponíveis até então são promissores e apontam para maiores ganhos terapêuticos.

 

 

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