Musculatura de fala (IV)

set 02, 2014 | por Sandra Merlo | Fisiologia, Histologia, Musculatura de fala

Língua infantil-2Neste texto, vamos falar especificamente sobre os músculos da língua, que são os maiores responsáveis pelos gestos articulatórios da fala.

 

Língua

A língua humana possui dois grandes grupos musculares: os intrínsecos e os extrínsecos.

Os músculos intrínsecos são aqueles que têm origem e inserção na própria língua: longitudinal superior, transverso, vertical e longitudinal inferior.

Os músculos extrínsecos são aqueles que têm origem na língua e inserção óssea: genioglosso, hioglosso e estiloglosso.

Em outro texto, falaremos sobre cada um desses músculos e suas funções específicas. Por ora, este corte coronal mostra os músculos intrínsecos da língua.

 

Estudo

A língua humana é capaz de uma grande variedade de movimentos, o que a faz única entre os mamíferos. Por exemplo, sabe-se que camundongos e cachorros não apresentam fibras tipo I em suas línguas (todas as fibras são tipo II). Por outro lado, macacos apresentam 25% de fibras tipo I em suas línguas. Nos seres humanos, ocorre grande número de fibras tipo I, as quais lentificam os movimentos e são mais resistentes à fadiga. Foi exatamente esta a hipótese testada pelo otorrinolaringologista Ira Sanders & colaboradores: que é o aumento de fibras lentas na língua humana que a capacita para os gestos articulatórios da fala [1].

Os autores do estudo obtiveram línguas de cadáveres de idades e de espécies diferentes. A intenção era conseguir dados de espécimes com habilidades distintas de fala. Foram obtidas línguas de quatro humanos adultos, de um humano adulto com doença de Parkinson, de uma criança humana de dois anos, de um humano recém-nascido e de um macaco. Todas as línguas foram retiradas até 24 horas após a morte.

Os resultados histológicos deixam clara a extrema complexidade muscular da língua.

Primeiro vamos aos resultados dos músculos intrínsecos da língua:

  • O músculo longitudinal superior foi o mais estudado por ser o de mais fácil dissecção. Na lâmina, houve menor quantidade de fibras lentas (45%), fibras de menor diâmetro, menor agrupamento de fibras e tecido conectivo frouxo. Na parte lateral do corpo e da base, houve número intermediário de fibras lentas (50%), fibras de diâmetro intermediário, agrupamento de fibras e tecido conectivo. Na parte medial do corpo e da base, houve maior número de fibras lentas (72%), fibras de maior diâmetro, maior agrupamento de fibras e menos tecido conectivo. As fibras lentas se organizaram em grupos, diferentemente do que ocorre nos músculos dos membros (cujo arranjo de fibras lentas e rápidas é aleatório). Esse agrupamento de fibras lentas pareceu ser essencial para a língua humana e só foi encontrado nos quatro adultos, estando muito diminuída nos outros espécimes (adulto com Parkinson, criança de dois anos, recém-nascido e macaco).
  • O músculo longitudinal inferior e o transverso são os músculos mais lentos da língua (60% de fibras lentas), sem haver diferenças significativas no tipo de fibras ao longo da língua.
  • O músculo vertical é o mais rápido da língua (41% de fibras lentas).

Agora vamos aos resultados dos músculos extrínsecos:

  • Os músculos genioglosso, hioglosso e estiloglosso apresentaram 56%, 54% e 48%, respectivamente, de fibras lentas. Nos músculos extrínsecos, a lâmina sempre teve menor percentual de fibras lentas em relação ao corpo e à base.

Agora os resultados em relação às três grandes partes da língua:

  • A lâmina, o corpo e a base apresentaram 46%, 57% e 58% de fibras lentas, respectivamente. As diferenças musculares da lâmina para o corpo e a base refletem as capacidades de movimento dessas porções da língua. A lâmina é capaz de se deformar facilmente, enquanto o corpo e a base não.

Por último, os resultados das diferentes espécimes:

  • A distribuição das fibras lentas na língua das cinco espécimes foi distinta. Os adultos e a criança de dois anos apresentaram mais fibras lentas nos músculos intrínsecos da língua (53%) do que o adulto com Parkinson (45%), o recém-nascido (32%) e o macaco (28%). Assim, a hipótese dos autores do estudo foi confirmada: quanto maior a capacidade de fala, maior a presença de fibras tipo I nos músculos da língua.

 

Na comparação com outros primatas e mamíferos, a alta incidência de fibras tipo I sugere que a língua humana se especializou para a fala. Os gestos articulatórios da fala não exigem força, mas formato e posicionamento precisos, além de resistência à fadiga. Esse passo evolutivo na organização da musculatura da língua e da face foi um dos fatores que possibilitou o desenvolvimento da fala pelos seres humanos.

 

Referência

[1] Sanders, I. et al. (2013). The human tongue slows down to speak: muscle fibers of the human tongue. The Anatomical Record, 296 (10): 1615-27.

 

 

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