Assumir a gagueira explicitamente

fev 24, 2017 | por Sandra Merlo | Gagueira, Interação social, Últimas descobertas

Estreando neste mês uma nova editoria no blog: “Latest News”. Será uma editoria que trará as últimas descobertas científicas sobre fluência e gagueira.

Neste post, vamos falar sobre um artigo científico recém-publicado no periódico American Journal of Speech-Language Pathology [1]. O artigo foi escrito pela fonoaudióloga Courtney Byrd & colaboradoras. A pergunta central do artigo era: qual é a consequência de se dizer explicitamente para um interlocutor desconhecido que se é uma pessoa que gagueja? Esta é uma dúvida frequente na clínica de gagueira. Muitos adolescentes e adultos se questionam se devem ou não deixar claro que eles gaguejam para um interlocutor que acabaram de conhecer. Se você tem dúvidas quanto a isso, talvez os achados deste estudo possam ajudá-lo a refletir e a decidir.

O estudo foi estruturado da seguinte forma: dois adultos com gagueira foram filmados e outros 173 adultos assistiram às filmagens. Os espectadores responderam a um questionário informando suas percepções sobre assumir ou não a gagueira explicitamente.

 

Sujeitos com gagueira

Um homem de 21 anos e uma mulher de 24 anos foram os sujeitos com gagueira que participaram da pesquisa. Ambos eram falantes nativos do inglês americano. Ambos apresentavam gagueira desde a infância. Ambos fizeram fonoterapia na abordagem de modificação da gagueira.

Os sujeitos foram filmados individualmente em um estúdio de TV. Eles leram em voz alta, utilizando a técnica de gagueira voluntária, aprendida em fonoterapia. Desta forma, no texto a ser lido, havia marcações para a produção voluntária de repetições, alongamentos e bloqueios. Ao todo, estavam previstas 24 sílabas gaguejadas a cada 100 sílabas de texto (24% de gagueira, portanto). Este percentual corresponde a uma gagueira grave. Os sujeitos ensaiaram previamente a leitura. A análise das gravações indicou que a tipologia e o percentual de gagueira (voluntária ou não), bem como os movimentos associados à fala foram virtualmente idênticos entre os sujeitos.

O sujeito iniciava a gravação cumprimentando o espectador, dizendo seu primeiro nome e avisando que ia ler um texto. Na sequência, dizia algo como: “Apenas para você saber, eu gaguejo. Então, de vez em quando, você vai me ouvir repetindo alguns sons e palavras”. Para finalizar, a leitura ensaiada do texto era realizada.

Os vídeos foram editados a fim de manter ou retirar a parte em que o sujeito assumia explicitamente sua gagueira. Desta forma, as gravações assistidas pelos espectadores eram idênticas, exceto por haver ou não o trecho em que o sujeito assumia a gagueira. Assim, havia quatro situações possíveis:

  1. Falante masculino que assumia a gagueira explicitamente;
  2. Falante masculino que não assumia a gagueira explicitamente;
  3. Falante feminino que assumia a gagueira explicitamente;
  4. Falante feminino que não assumia a gagueira explicitamente.

 

Situação experimental

Participaram como espectadores, 173 adultos entre 18 e 35 anos, metade de cada sexo. Todos falantes nativos do inglês americano. O grau de familiaridade dos sujeitos com a gagueira e com pessoas que gaguejam era variado:

  • 142 sujeitos já haviam, em algum momento de suas vidas, encontrado alguém com gagueira.
  • 100 sujeitos conheciam e tinham proximidade com uma pessoa que gagueja.
  • 97 sujeitos informaram que já haviam tido alguma experiência informal sobre gagueira, como ler um livro ou assistir a um filme sobre o assunto.
  • 32 sujeitos informaram que já haviam tido alguma experiência formal sobre gagueira, como assistir a uma aula ou palestra sobre o assunto.
  • 39 sujeitos informaram que já haviam gaguejado durante suas vidas, sendo que 22 gaguejavam de forma crônica.

Os participantes eram informados que iam assistir a dois vídeos curtos e que, logo após, responderiam a um breve questionário. Os vídeos foram apresentados de forma aleatória para que todas as combinações fossem utilizadas (sendo doze combinações possíveis). Assim, nem sempre os participantes assistiram ao vídeo do rapaz e da moça e nem sempre os participantes assistiram aos vídeos em que os sujeitos assumiam explicitamente a gagueira. Isso podia acontecer ou não.

Os 173 adultos foram solicitados a responder a um questionário sobre suas impressões logo após assistirem aos vídeos. Esta tarefa geralmente era feita em 15 minutos.

A primeira parte do questionário pretendia avaliar a impressão dos espectadores a respeito de alguns traços de personalidade dos sujeitos. Perguntava-se aos sujeitos em qual vídeo o falante parecia mais amigável, mais sociável, mais inteligente ou mais confiante e em qual vídeo o espectador se sentiu mais distraído. Inversamente, também se perguntava em qual vídeo o falante parecia menos amigável, menos inteligente, mais inseguro ou mais tímido e em qual vídeo o espectador se sentiu menos distraído. Os sujeitos poderiam responder: no vídeo 1, no vídeo 2 ou sem diferença.

A segunda parte do questionário consistia de diversas perguntas abertas com a finalidade de saber o quanto os sujeitos estavam familiarizados com pessoas com gagueira (resultados citados acima). Além disso, os participantes podiam escrever suas impressões gerais sobre os vídeos, se assim desejassem. Todos os 173 participantes deixaram observações escritas.

 

Resultados

De forma geral, a análise estatística indicou que os espectadores reagiram de forma mais positiva aos vídeos em que o falante assumiu explicitamente a gagueira e também aos vídeos com o falante masculino. Vamos ver resultados em detalhes:

Mais amigável versus menos amigável:

  • Os espectadores foram mais propensos a indicar o falante que não assumiu a gagueira explicitamente como mais amigável, mas muito mais propensos a indicar o falante que não assumiu a gagueira como menos amigável.
  • Os espectadores também foram mais propensos a indicar o falante do sexo masculino como mais amigável e a falante do sexo feminino como menos amigável.

Mais sociável versus mais tímido:

  • Os espectadores foram mais propensos a indicar o falante que assumiu a gagueira explicitamente como mais sociável e o falante que não assumiu como mais tímido.
  • Os espectadores também foram mais propensos a indicar o falante do sexo masculino como mais sociável e a falante do sexo feminino como mais tímida.

Mais inteligente versus menos inteligente:

  • Não houve tendência a indicar os falantes que assumiram a gagueira explicitamente como mais ou menos inteligentes.
  • Os espectadores foram mais propensos a indicar o falante do sexo masculino como mais inteligente e a falante do sexo feminino como menos inteligente.

Mais confiante versus mais inseguro:

  • Os espectadores foram mais propensos a indicar como mais confiante o falante que assumiu a gagueira explicitamente. Mas o falante que não assumiu a gagueira explicitamente não foi visto como mais inseguro.
  • Os espectadores também foram mais propensos a indicar o falante do sexo masculino como mais confiante e a falante do sexo feminino como mais insegura.

Espectador se sentiu mais distraído versus espectador se sentiu menos distraído:

  • Não houve tendência para os espectadores se sentirem mais ou menos distraídos em relação a assumir ou não explicitamente a gagueira.
  • Os espectadores foram mais propensos a indicar que se sentiram mais distraídos com a falante do sexo feminino e menos distraídos com o falante do sexo masculino.

Em suas observações escritas, os espectadores tenderam a considerar o falante que assumiu explicitamente sua gagueira como seguro de si, educado, à vontade e pouco envergonhado. Por outro lado, o falante que não assumiu a gagueira foi visto como tímido, envergonhado e desajeitado. Quase a metade dos espectadores referiu que se sentiu desconfortável e incomodado ao assistir ao vídeo em que o falante não assumiu a gagueira explicitamente. Muito interessante também foi o achado de que o espectador teve a impressão que o falante que assumiu a gagueira era mais fluente em comparação ao falante que não assumiu (o que não corresponde à realidade, haja vista a proporção virtualmente idêntica de gagueira nos dois falantes).

Portanto, os ouvintes tiveram a tendência de considerar o falante que assumiu a gagueira explicitamente como mais sociável e mais seguro de si. De forma complementar, não assumir a gagueira explicitamente também aumentou muito as chances de o falante ser considerado menos amigável. Assumir ou não a gagueira explicitamente não se relaciona com ser visto como mais ou menos inteligente ou com o ouvinte se distrair mais ou menos em sua escuta.

 

Comentários adicionais

Um aspecto que vale a pena destacar é a frase utilizada pelos falantes para avisar sobre sua gagueira para o ouvinte: “Apenas para você saber, eu gaguejo. Então, de vez em quando, você vai me ouvir repetindo alguns sons e palavras”. As autoras do estudo frisam que não foi um enunciado em que o falante pede desculpas ao ouvinte por gaguejar. Esta poderia ser uma das razões que fez os ouvintes considerarem que assumir a gagueira é algo essencialmente positivo. Os falantes não disseram algo como: “Me desculpe, eu gaguejo. Então eu peço que você tenha um pouco de paciência comigo”. Acho bem possível que um falante que se desculpa pela sua gagueira não seja visto como mais sociável e mais seguro de si. Pelo contrário, acho que ele terá mais tendência de ser visto como envergonhado, tímido e inseguro.

A falante do sexo feminino foi vista como menos amigável, mais tímida, menos inteligente e mais insegura, além de ter distraído mais o ouvinte, em comparação ao falante do sexo masculino. Por isso, as autoras pontuam que assumir explicitamente a gagueira é ainda mais importante para as mulheres do que para os homens.

Para finalizar, as autoras do estudo não sugerem que as pessoas sempre assumam explicitamente sua gagueira ao interagir com novos interlocutores. Mas, sim, sugerem que as pessoas aprendam a assumir sua gagueira de forma explícita quando isso for benéfico para elas (por exemplo: em situações em que a pessoa geralmente evita falar, em situações com maior risco de o interlocutor cair no estereótipo social da gagueira). Vem à minha mente as situações de entrevistas de emprego e dinâmicas de grupo, muitas vezes tão difíceis para quem gagueja (ver a série “Gagueira e mercado de trabalho“). Nessas situações, o candidato poderia iniciar sua fala avisando aos interlocutores que gagueja, mas sem se desculpar por isso.

 

Referência

Byrd, C. T.; McGill, M.; Zoi Gkalitsiou, Z. & Cappellini, C. (2017). The effects of self-disclosure on male and female perceptions of individuals who stutter. American Journal of Speech-Language Pathology, 26, 69-80.