Gagueira e estimulação transcraniana

abr 16, 2018 | por Sandra Merlo | Eletroterapia, Gagueira, Últimas descobertas

A estimulação elétrica transcraniana é um método não invasivo de neuromodulação e pode auxiliar no tratamento fonoaudiológico da gagueira. Foto: DC-Stimulator Plus da neuroConn (neuroCare Group).

O uso terapêutico da estimulação elétrica transcraniana começa a ser estudado em adultos com gagueira persistente. O estudo que acaba de ser publicado é de autoria da fonoaudióloga britânica Jennifer Chesters e colaboradoras [1] e traz ótimas notícias para a fonoterapia da gagueira.

A estimulação elétrica transcraniana por corrente contínua é um método não invasivo de neuroestimulação. São posicionados eletrodos no couro cabeludo e é aplicada corrente elétrica contínua de baixa intensidade na área a ser estimulada. A passagem da corrente elétrica modifica o potencial de membrana da região do córtex cerebral que está recebendo a estimulação. Este tipo de estimulação tem o potencial, por exemplo, de aumentar a excitabilidade do córtex motor. Além disso, quando este tipo de estimulação é realizada em conjunto com uma tarefa motora, ela auxilia na aprendizagem motora. Por isso, as autoras do estudo avaliaram a aplicação de estimulação transcraniana com corrente contínua associada a técnicas de indução da fluência em adultos com gagueira persistente. A hipótese das autoras era de que a aplicação da estimulação transcraniana enquanto os sujeitos produziam fala fluente favoreceria os circuitos cerebrais associados à fala fluente e também favoreceria ganhos de longo prazo.

 

Método

Foram recrutados 30 homens adultos com gagueira para o estudo, com idade média de 34 anos. Todos os sujeitos apresentavam gagueira de nível moderado, grave ou muito grave; foram excluídos sujeitos com gagueira muito leve ou leve. Os sujeitos foram separados em dois grupos: aquele que recebia a estimulação transcraniana e aquele que recebia uma estimulação simulada. Os sujeitos, bem como a fonoaudióloga que ministrava o tratamento, não estavam cientes de quem estava ou não recebendo a estimulação transcraniana real. Isso foi feito para se avaliar o efeito placebo.

A estimulação transcraniana foi aplicada no córtex frontal inferior esquerdo, com corrente contínua de 1 mA, durante 20 minutos, por cinco dias consecutivos. O córtex frontal inferior esquerdo é uma das regiões cerebrais envolvidas na produção da fala. O posicionamento do eletrodo englobava três áreas específicas: área de Broca, área pré-motora e córtex motor primário. Diversos estudos já demonstraram que esta região é funcionalmente menos ativa no cérebro de pessoas com gagueira. Abaixo desta região, há um trato de substância branca que apresenta alterações em sua integridade estrutural. O eletrodo sobre o córtex frontal inferior esquerdo era negativo, enquanto outro eletrodo posicionado no lado direito da testa era positivo. O neuroestimulador utilizado foi DC-Stimulator Plus da NeuroCare.

Durante a estimulação transcraniana, os sujeitos produziam fala fluente através de duas técnicas de indução da fluência: fala em coro e fala com metrônomo. A fala em coro era utilizada para induzir fluência na tarefa de leitura em voz alta. A fala com metrônomo (com 140 batidas por minuto) era utilizada para induzir fluência nas tarefas de produção de narrativa falada e conversação.

A fluência da fala foi avaliada antes do tratamento iniciar, antes e depois de cada sessão, uma semana depois do tratamento terminar e seis semanas depois do tratamento terminar. Também foram feitas duas avaliações complementares antes e seis semanas depois de todo o tratamento: um delas com um questionário para avaliar o impacto psicossocial da gagueira e outra com um questionário para avaliar o grau de ansiedade dos sujeitos.

 

Resultados

Em comparação com o início do tratamento, a porcentagem de sílabas com hesitações (comuns e gaguejadas) apresentou redução de 27% na primeira semana e de 22% na sexta semana após o final do tratamento para o grupo que recebeu a estimulação transcraniana real. Na primeira semana depois do tratamento, tanto a fala espontânea, quanto a leitura em voz apresentaram melhora em relação ao início do tratamento. Na sexta semana depois do tratamento, somente a leitura em voz apresentava melhora na fluência em relação ao início do tratamento.

Também houve redução significativa na pontuação em um protocolo padronizado de avaliação da gagueira (Stuttering Severity Instrument, SSI) na primeira e na sexta semanas após o final do tratamento para o grupo que recebeu a estimulação transcraniana real. Houve redução de cerca de 30% na pontuação do SSI após seis semanas do final do tratamento. Das três variáveis do SSI, a que apresentou maior redução foi a duração da gagueira, enquanto a frequência da gagueira e os concomitantes físicos apresentaram menor redução.

Para o grupo que recebeu a estimulação transcraniana simulada, não foi observada melhora da fluência uma semana e seis semanas depois do tratamento simulado. Ou seja, não houve evidências de efeito placebo.

Não houve diferença no impacto psicossocial da gagueira ou no grau de ansiedade entre o grupo que recebeu a estimulação transcraniana real e o grupo placebo seis semanas depois do final do tratamento.

Portanto, este estudo do uso da estimulação elétrica transcraniana associado à produção de fala fluente demonstrou haver melhoras significativas na fluência de pessoas com gagueira persistente até seis semanas depois de um tratamento intensivo de cinco dias. Entretanto, como ocorre perda da melhora ao longo do tempo, torna-se necessário repetir o tratamento para que os ganhos sejam mantidos.

Outros estudos são necessários para verificar se a estimulação transcraniana pode ser associada às técnicas convencionais de promoção da fluência (como a redução da taxa de elocução e a suavização). Além disso, sua aplicabilidade com crianças também precisa ser estudada.

 

Referência

Chesters, J.; Möttönen, R. & Watkins, K. E. (2018). Transcranial direct current stimulation over left inferior frontal cortex improves speech fluency in adults who stutter. Brain, 141, 1161-1171. [Artigo de acesso aberto].