Parafunções orais

ago 06, 2018 | por Sandra Merlo | Musculatura de fala, Tensão muscular

Comportamentos parafuncionais orais podem tensionar e/ou fadigar a musculatura mastigatória, dificultando a aprendizagem de padrões de fala que facilitem a fluência.

Uma das formas de fonoterapia da gagueira envolve a aprendizagem de novos padrões neuromotores de fala. Um novo padrão neuromotor de fala para gagueira pode tanto ser um modo mais lentificado, como um modo mais suavizado de fala. O início da aprendizagem de um novo padrão de fala envolve, necessariamente, o controle voluntário da musculatura de fala. Com a repetição do treino, o padrão tende a se tornar mais automático, mas, no início do treino, o controle voluntário é crucial. Entretanto, quando a musculatura de fala está excessivamente tensionada, fadigada ou dolorida devido a algum comportamento parafuncional oral, o controle voluntário da fala pode estar prejudicado. Por exemplo, um paciente com bruxismo cêntrico crônico pode não ser capaz de aumentar a amplitude dos movimentos articulatórios para reduzir a taxa de elocução. Ou ele pode não ser capaz de reduzir a força dos movimentos articulatórios para produzir fala suave. Isso ocorre porque o bruxismo cêntrico tende a aumentar a tensão e a rigidez dos músculos mastigatórios, dificultando a aprendizagem de novos padrões neuromotores de fala.

A expressão “parafunções orais” designa comportamentos que ativam a musculatura mastigatória para a realização de movimentos não relacionados à mastigação, à deglutição ou à fala [1]. Na lista de comportamentos parafuncionais orais, estão [1]:

  1. Tocar e/ou apertar uma arcada dentária contra a outra (bruxismo cêntrico);
  2. Friccionar a arcada inferior contra a superior, muitas vezes ocasionando ruído de ranger os dentes (bruxismo excêntrico);
  3. Mascar chiclete;
  4. Morder os lábios ou a parte interna das bochechas;
  5. Morder a ponta de lápis, caneta ou unhas;
  6. Segurar o telefone entre a cabeça e o ombro.

A ocorrência de algum comportamento parafuncional oral faz com que a musculatura mastigatória seja ativada em excesso, ocasionando hipertrofia, fadiga e/ou dor na face [1].

Para a identificação e o diagnóstico desses comportamentos, o relato do paciente é o primeiro passo [1]. Em boa parte dos casos, o próprio paciente tem alguma consciência das parafunções. Mas, muitas vezes, não percebe todos os comportamentos parafuncionais que apresenta ou sua intensidade. Além disso, também há dados mais objetivos que sinalizam comportamentos parafuncionais, tais como desgaste dentário, hipertrofia no músculo masseter ou sinais de mordida nos lábios [1].

Assume-se que todas as pessoas apresentam algum grau de contato dentário durante o dia [1]. Considera-se como normal até 7 horas de contato por dia. Por outro lado, pessoas com bruxismo cêntrico apresentam contato dentário de forma quase permanente, ou seja, quase 24 horas por dia.

A etiologia dos comportamentos parafuncionais ainda não está esclarecida. Alguns comportamentos podem ter sido simplesmente aprendidos em algum momento da vida e depois se perpetuaram [1]. Outros comportamentos podem ter sido deflagrados em períodos de maior estresse e ansiedade [1]. O bruxismo excêntrico, por exemplo, já foi relacionado a um efeito colateral de inibidores seletivos de recaptura de serotonina, uma classe de medicamentos utilizados para depressão. Também existe a possibilidade desses comportamentos serem decorrentes de déficits de propriocepção [1].

 

Tratamentos

O autocuidado é o primeiro aspecto do tratamento. O paciente é orientado a evitar ativamente o comportamento parafuncional [1]. Por exemplo, ao perceber que os dentes estão em contato, o paciente deve voluntariamente separar as arcadas dentárias e procurar manter a musculatura mais relaxada.

Alimentos com cafeína (café, chá mate, chá preto, refrigerantes, chocolates) devem ser evitados [1]. A cafeína aumenta a tensão muscular e, por isso, pode intensificar a força muscular utilizada nos comportamentos parafuncionais.

Placas de acrílico geralmente são indicadas para pessoas com bruxismo excêntrico noturno, com o objetivo de reduzir o desgaste dentário. Placas de acrílico ou de silicone são indicadas para redução da dor na musculatura mastigatória. O uso da placa deve sempre ser aliado ao autocuidado, ou seja, o paciente precisa utilizar a placa como um “lembrete proprioceptivo” para interromper o bruxismo [1].

Alguns medicamentos também podem ser utilizados. Relaxantes musculares e aplicações de toxina botulínica podem ajudar a reduzir a tensão muscular, enquanto analgésicos podem ajudar a reduzir a dor [1].

 

Referência

Glaros, A. G. & Fricton, J. (2017). Oral parafunctional behaviors. In: Ferreira, J. N. A. R.; Fricton, J. & Rhodus, N. (Eds). Orofacial disorders: Current therapies in orofacial pain and oral medicine (pp. 115-125). Cham: Springer.