Bruxismo

set 10, 2018 | por Sandra Merlo | Musculatura de fala, Tensão muscular

O bruxismo se refere à atividade repetitiva dos músculos mandibulares, podendo ocorrer durante a vigília ou durante o sono. O bruxismo só é considerado distúrbio quando traz consequências negativas para o sujeito.

Diversas atividades motoras orais podem ser classificadas sob o rótulo genérico de “bruxismo”:

  1. Tocar ou pressionar uma arcada dentária contra a outra.
  2. Friccionar a arcada inferior contra a superior, podendo haver ruídos decorrentes desse movimento. O movimento de fricção pode envolver toda a arcada inferior ou pode envolver somente um dente (como, por exemplo, um dos caninos).
  3. Manter os músculos da face tensionados, sem, no entanto, chegar a tocar uma arcada contra a outra.
  4. Manter a mandíbula fora da posição habitual de repouso, podendo estar mais anteriorizada ou mais lateralizada do que seria o esperado.

Todos os exemplos citados acima são de bruxismo, sendo seus quatro tipos básicos. Além disso, o bruxismo pode ocorrer quando o indivíduo está acordado, quando está dormindo ou nas duas situações.

Levando em conta todos esses aspectos, a definição consensual de bruxismo estabelece que [1]:

“O bruxismo se refere à atividade repetitiva dos músculos mandibulares, caracterizada por apertar ou ranger os dentes e/ou por tensionar ou empurrar a mandíbula. O bruxismo possui duas manifestações circadianas: pode ocorrer durante o sono ou durante a vigília”.

 

Diagnóstico

É indicado que seja adicionada gradação junto ao diagnóstico de bruxismo: “possível”, “provável” ou “confirmado” [1].

O diagnóstico de possível bruxismo deve ser dado em situações de referência do paciente (durante anamnese clínica ou pela aplicação de questionários). Este método diagnóstico é pouco sensível. Há evidências de que sujeitos que apresentaram bruxismo durante uma noite de sono (comprovado por polissonografia) têm grandes chances de não reportarem o comportamento quando questionados sobre ele pela manhã [2]. Na prática clínica, não raro se observam pacientes que fazem bruxismo durante a consulta e que, quando questionados, respondem que não apresentam bruxismo.

O diagnóstico de provável bruxismo deve ser dado em situações de referência do paciente associado ao exame clínico. O exame clínico busca sinais duradouros da ocorrência de bruxismo, tais como: fadiga ou dor nos músculos mandibulares, desgaste dentário ou cefaleia temporal. Há evidências de que o resultado do exame clínico varia conforme o conhecimento e a experiência do profissional que faz o exame [2]. Isso quer dizer que o paciente pode receber diagnósticos diferentes, dependendo do nível de expertise dos profissionais que o examinaram.

O diagnóstico de bruxismo confirmado durante a vigília deve ser dado em situações de referência do paciente, exame clínico e eletromiografia. A eletromiografia de superfície busca evidências de alteração nos padrões de contração dos músculos mandibulares durante o repouso e durante atividades motoras orais.

O diagnóstico de bruxismo confirmado durante o sono deve ser dado em situações de referência do paciente, exame clínico e polissonografia com registro audiovisual. No caso da polissonografia, a detecção do bruxismo é feita através da colocação de eletrodos de superfície a fim de registrar a atividade de músculos mastigatórios (como o masseter e o temporal) [3]. Cerca de 60% da população adulta apresenta até um episódio por hora de bruxismo durante o sono, o que é considerado normal [3]. O diagnóstico laboratorial de bruxismo requer pelo menos três episódios por hora de bruxismo durante o sono [3]. Além disso, apenas metade dos pacientes com bruxismo durante o sono apresentam os característicos ruídos do ranger de dentes [3]; a outra metade não apresenta (talvez por apresentar bruxismo cêntrico e não excêntrico). Os episódios de bruxismo durante o sono geralmente ocorrem durante o estágio N2, um estágio de sono mais leve, no qual a musculatura não está tão relaxada como nos estágios N3 e REM [3]. A maior parte dos episódios de bruxismo estão relacionados a microdespertares [3]. Além disso, a polissonografia não apenas pode diagnosticar com precisão se ocorreu ou não bruxismo, como também pode auxiliar no diagnóstico diferencial (ou seja, se os movimentos registrados são compatíveis com bruxismo ou com outra condição). Uma das limitações deste método é se apenas uma noite de avaliação é suficiente para diagnosticar pacientes com e sem bruxismo, tendo em vista que o bruxismo não ocorre necessariamente em todas as noites de sono [2].

 

Hábito, comportamento ou distúrbio?

A definição de bruxismo diz que é uma “atividade repetitiva dos músculos mandibulares”.

Não se recomenda dizer que bruxismo é um “hábito”, porque implicaria assumir que a atividade muscular iniciou de forma voluntária e consciente e que, através da repetição, tornou-se frequente [1]. No caso do bruxismo que ocorre durante o sono, isso também não é verdadeiro. Tendo em vista que o sono implica perda temporária de consciência, não é possível que o indivíduo que faz bruxismo durante o sono o faça de forma consciente. Em muitos casos, isso também se aplica para a vigília. Muitos sujeitos que fazem bruxismo quando acordados não estão conscientes disso.

Alguns estudiosos postulam que o bruxismo pode ser apenas um comportamento, sem consequências negativas para o sujeito [2]. Ou, inclusive, que ele tenha funções fisiológicas importantes, como, por exemplo, manter a via aérea desobstruída para facilitar a respiração durante o sono [2].

Para se considerar o bruxismo como um distúrbio, devem ser encontradas as consequências negativas da atividade muscular repetitiva [2]. Dentre essas consequências, estão desgaste dentário, fadiga nos músculos mandibulares e cefaleia temporal [2].

 

Referências

[1] Lobbezoo, F.; Ahlberg, J.; Glaros, A. G.; Kato, T.; Koyano, K.; Lavigne, G. J.; de Leeuw, R.; Manfredini, D.; Svensson, P. & Winocur, E. (2013). Bruxism defined and graded: an international consensus. Journal of Oral Rehabilitation, 40: 2-4.

[2] Raphael, K. G.; V. Santiago, V. & Lobbezoo, F. (2016). Is bruxism a disorder or a behaviour? Rethinking the international consensus on defining and grading of bruxism. Journal of Oral Rehabilitation, 43: 791-798.

[3] Saulue, P.; Carra, M. C.; Laluque, J. F. & d’Incau, E. (2015). Understanding bruxism in children and adolescents. International Orthodontics, 13: 489-506.