Distúrbios do neurodesenvolvimento em crianças com gagueira

jan 30, 2019 | por Sandra Merlo | Gagueira, Últimas descobertas

Crianças com gagueira possuem maiores chances de apresentar outro distúrbio do neurodesenvolvimento (como epilepsia ou TDAH) em relação às crianças sem gagueira.

Quais as chances de uma criança com gagueira também apresentar outro distúrbio do neurodesenvolvimento? Para responder esta pergunta, os fonoaudiólogos americanos Patrick Briley e Charles Ellis Jr. analisaram um extenso banco de dados. Os resultados indicaram que metade das crianças com gagueira apresentavam outro distúrbio do neurodesenvolvimento associado, como epilepsia ou TDAH.

 

O estudo

O objetivo do estudo foi verificar se a gagueira infantil tende a ocorrer em conjunto com determinados distúrbios do neurodesenvolvimento. Foram utilizados dados do “National Center for Health Statistics”, um instituto nacional de saúde dos EUA. Este instituto visita de 35.000 a 40.000 residências todos os anos, com a intenção de levantar dados para monitorar a saúde de crianças e adultos. A escolha das residências é determinada através de métodos estatísticos de amostragem.

A coleta de dados é feita através de questionários. Existem questionários específicos para adultos e para crianças. É definida como “criança” qualquer indivíduo abaixo de 18 anos de idade. O questionário relativo às crianças pode ser lido aqui. As respostas são fornecidas por um adulto responsável pela criança (mãe ou madrasta, pai ou padrasto, avó, avô).

O estudo de Briley & Ellis Jr. analisou as respostas dos questionários sobre as crianças entre os anos de 2010 a 2015. As crianças incluídas no estudo foram aquelas para quem havia resposta explícita (“sim” ou “não”) em referência à seguinte pergunta: “Nos últimos 12 meses, a criança apresentou gagueira?”.

Também foram analisadas as respostas para mais cinco perguntas:

  • “Um médico ou outro profissional de saúde, em algum momento da vida da criança, disse que ela apresenta deficiência intelectual?”
  • “Um médico ou outro profissional de saúde, em algum momento da vida da criança, disse que ela apresenta transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (TDAH)?”
  • “Um médico ou outro profissional de saúde, em algum momento da vida da criança, disse que ela apresenta transtorno do espectro autista?”
  • “Um profissional da escola ou um profissional de saúde, em algum momento da vida da criança, disse que ela apresenta distúrbio de aprendizagem?”
  • “Nos últimos 12 meses, a criança apresentou convulsões?”

Não foram avaliadas as respostas para outras condições de saúde, tais como: síndrome de Down, paralisia cerebral, alergias (respiratórias, alimentares ou de pele), otites, deficiência auditiva, problemas de fala, depressão, irritabilidade.

 

Resultados

Os dados de 2010 a 2015 incluíram 62.450 crianças, sendo que 51% eram do sexo masculino. Do total de crianças, 1.231 (2%) foram referidas como apresentando gagueira nos últimos 12 meses, sendo que 68% destas crianças eram do sexo masculino.

As crianças sem gagueira tendiam a ser mais velhas (idade média de 10 anos) em relação às com gagueira (idade média de 8,8 anos). A maior frequência de gagueira estava na faixa etária de 3 a 5 anos, depois na faixa de 6 a 10 anos e, por último, na faixa de 11 a 17 anos.

A escolarização dos pais diferenciou os dois grupos de crianças: 38% dos pais das crianças sem gagueira possuíam diploma de nível superior contra 22% das crianças com gagueira. A renda familiar também diferenciou os dois grupos de crianças: 49% das crianças com gagueira estavam na menor faixa de renda, havendo apenas 29% de crianças sem gagueira na mesma faixa de renda.

A presença de distúrbios do neurodesenvolvimento foi bem maior entre crianças com gagueira: 52% das crianças com gagueira apresentaram outro distúrbio do neurodesenvolvimento contra apenas 15% das crianças sem gagueira. Em termos percentuais, os resultados foram:

  • 33% das crianças com gagueira também apresentaram distúrbio de aprendizagem.
  • 25% das crianças com gagueira também apresentaram TDAH.
  • 7,5% das crianças com gagueira também apresentaram deficiência intelectual.
  • 8% das crianças com gagueira também apresentaram transtorno do espectro autista.
  • 5% das crianças com gagueira também apresentaram convulsões.

Os resultados acima podem dar a entender que o distúrbio de neurodesenvolvimento mais frequentemente associado à gagueira é o distúrbio de aprendizagem. Entretanto, quando os dados foram corrigidos estatisticamente em relação a gênero, raça, educação parental e renda familiar, os resultados foram bem diferentes. Por isso, o estudo concluiu que crianças que apresentaram gagueira nos últimos 12 meses também tiveram:

  • 7,5 vezes mais chances de apresentarem convulsões nos mesmos 12 meses.
  • 6,5 vezes mais chances de apresentarem deficiência intelectual.
  • 5,5 vezes mais chances de apresentarem distúrbio de aprendizagem.
  • 5,5 vezes mais chances de apresentarem transtorno do espectro autista.
  • 3 vezes mais chance de apresentarem TDAH.

Fiquei surpresa ao ver que o distúrbio de neurodesenvolvimento com maior probabilidade de ocorrer em crianças com gagueira são convulsões. A convulsão é um sinal que pode indicar epilepsia (embora não seja um sinal inequívoco). Este resultado é bastante compatível com minha experiência clínica, tendo em vista que aproximadamente metade das crianças com gagueira que atendo apresentam formas brandas de epilepsia.

Importante destacar que o estudo indicou também que a maior referência a outros distúrbios de neurodesenvolvimento ocorreu para todas as faixas etárias de crianças com gagueira (dos 3 aos 5 anos, dos 6 aos 10 anos e dos 11 aos 17 anos). Ou seja, são dados consistentes.

Os motivos que levam as crianças com gagueira a também apresentarem outro distúrbio de neurodesenvolvimento ainda não são claros, mas tudo leva a crer que são processos neurais compartilhados entre as diferentes condições.

O fato de metade das crianças que gaguejam apresentarem pelo menos mais um distúrbio de neurodesenvolvimento indica que o fonoaudiólogo não pode se limitar a saber apenas sobre gagueira, devendo também possuir conhecimentos mínimos sobre convulsões/epilepsia, deficiência intelectual, distúrbios de aprendizagem, transtornos do espectro autista e TDAH.

Além disso, entendo que o fato de o estudo demonstrar que metade das crianças que gaguejam apresentam outro distúrbio de neurodesenvolvimento torna obrigatória a avaliação das crianças que gaguejam por um neurologista infantil. A avaliação tem por objetivo a realização de exames necessários (como o eletroencefalograma), o estabelecimento de um diagnóstico mais amplo em relação ao neurodesenvolvimento e a possibilidade de tratamento medicamentoso complementar. Penso que o tratamento da gagueira só tem a ganhar com isso, aumentando as chances de se obterem melhoras consistentes e duradouras na fluência da fala. Por exemplo, a presença de um quadro de epilepsia que ainda não foi corretamente identificado e tratado pode prejudicar significativamente a aprendizagem neuromotora necessária à melhora da fluência, comprometendo os resultados da fonoterapia. Outro exemplo refere-se ao TDAH: um estudo recente [2] indicou que crianças com gagueira que também apresentam TDAH necessitam de um maior número de sessões de fonoterapia (25% a mais) para atingir bons resultados na fluência da fala.

 

Referências

[1] Briley, P. M. & Ellis, C. Jr. (2018). The coexistence of disabling conditions in children who stutter: Evidence from the National Health Interview Survey. Journal of Speech, Language and Hearing Research, 61 (12), 2895-2905.

[2] Druker, K.; Hennessey, N.; Mazzucchelli, T. & Beilby, J. (2018). Elevated attention deficit hyperactivity disorder symptoms in children who stutter. Journal of Fluency Disorders [no prelo no momento da publicação deste post].