GAGUEIRA

O que é gagueira

 
A gagueira é um distúrbio de fluência da fala. Sintomas típicos incluem alongamentos, bloqueios e repetições de sons e sílabas.

 
A gagueira é involuntária. Isso significa que o falante não tem controle sobre sua fala, não sendo possível simplesmente optar por não gaguejar.

 
Na tentativa de ocultar a gagueira, o falante pode recorrer a diversos truques, nem sempre eficientes: substituir palavras difíceis por outras mais fáceis, falar outra frase antes da frase realmente pretendida (circunlocução), usar marcadores discursivos como “então” e “assim”, etc. Disfarçar a gagueira é um trabalho árduo e, mesmo com grande vigilância, o falante não consegue fugir de suas dificuldades.

 

Causas da gagueira

 
Duas causas da gagueira estão comprovadas.

 
A primeira e mais importante é a hereditariedade. A maior parte das pessoas que gaguejam apresentam predisposição genética para o distúrbio. Atualmente já se encontra disponível no Brasil um teste genético que testa três genes específicos para a gagueira.

 
A segunda é a lesão cerebral. Boa parte das pessoas que gaguejam (inclusive crianças) apresentam histórico de injúria cerebral, como: hipóxia cerebral ao nascer e trauma de crânio.

 
Também está sendo pesquisado se determinadas infecções (como por estreptococos do grupo A) podem causar gagueira.

 

Funcionamento cerebral na gagueira

 
O cérebro de uma pessoa que gagueja funciona de forma diferente em comparação com o cérebro de uma pessoa que não gagueja. Existem alterações tanto em nível cortical, quanto em nível subcortical. De maneira geral, essas alterações fazem com que os núcleos da base não produzam pistas temporais internas suficientes para finalizar um som e iniciar o próximo som da palavra. Até que o próximo som não é liberado, o falante permanece no som anterior (prolongando, repetindo ou bloqueando).

 
Situações que desautomatizam a fala ou que sincronizam a fala com estímulos externos tendem a melhorar a fluência, tais como: cantar, ler em coro, falar com outro sotaque, sussurrar, representar um personagem, falar em um ambiente barulhento, falar com crianças pequenas, etc.

 

Distúrbios associados

 
Os distúrbios mais comumente associados à gagueira são: taquifemia, tiques (motores e/ou vocais), transtorno do déficit de atenção com hiperatividade e impulsividade (TDAHI), transtornos de ansiedade, distonia, transtorno obsessivo-compulsivo (TOC). Para que o tratamento da gagueira tenha sucesso, é imprescindível fazer o diagnóstico diferencial da gagueira com estes outros distúrbios.

 

Tratamento fonoaudiológico especializado para gagueira

Close up of a man using mobile smart phone

 
Em linhas gerais, o tratamento aborda:

 
1) Dinâmica familiar

Determinadas atitudes dos pais podem piorar a gagueira do filho. A seguir, alguns pontos importantes:
– Não falar sobre a gagueira, fingindo que ela não existe, contribui para aumentar o tabu em torno do assunto.
– A gagueira é involuntária. Por isso dicas como: “Fale mais devagar”, “Fique calmo”, “Pensar antes de falar”, “Respire fundo”, “Pare e comece de novo”, “Pare de gaguejar” não funcionam.
– A criança não gagueja porque quer ou para chamar a atenção.
– Não apressar a criança para falar. Quanto mais rápido a criança tentar falar, mais vai gaguejar.

 
2) Eliminação do mito de 100% de fluência
O mito de 100% de fluência é muito prejudicial. A fluência normal não é perfeita e apresenta hesitações, pausas e reformulações. É possível atingir 100% de fluência apenas na leitura ensaiada ou na fala decorada. Assim, os apresentadores de telejornais são muito fluentes, porque leem as notícias. Da mesma forma, os personagens de novelas são muito fluentes, porque as falas estão decoradas. Como a fala espontânea não é, em geral, ensaiada ou decorada, apresenta uma queda de fluência, que é esperado.

 
3) Assumir a gagueira
Muitas pessoas que gaguejam se envergonham de sua fala ou acham que são culpadas por não “falarem direito”. Às vezes, para se sentirem melhor, essas pessoas passam a negar a gagueira. Mas a dificuldade somente pode ser melhorada quando a pessoa consegue reconhecê-la e assumi-la. Reconhecer que algo não está bem e assumir que precisa de ajuda.

 
4) Resposta de congelamento (“freezing”)
Certos sentimentos (como medo, ansiedade, insegurança, timidez, vergonha) podem piorar a gagueira. Essas emoções pioram a gagueira, porque disparam a resposta de congelamento. Por outro lado, outros sentimentos (como alegria, tranquilidade, raiva) podem melhorar a gagueira, porque tendem a não disparar a resposta de congelamento.

 
A resposta de congelamento é um estado de diminuição dos movimentos do corpo, incluindo redução dos batimentos cardíacos, dos movimentos voluntários e da vocalização. Esta resposta ocorre quando a pessoa está em uma situação que considera amedrontadora e fica em dúvida sobre a melhor decisão a tomar. Quando a pessoa tenta falar durante o congelamento, a gagueira claramente se intensifica.

 
5) Exercícios facilitadores
Relaxamentos e alongamentos específicos para lábios, língua, pescoço e ombros podem auxiliar na percepção e na diminuição da tensão muscular, que frequentemente está aumentada na pessoa que gagueja.

 
6) Técnicas ou estratégias de fala

 
Diminuição da “velocidade de fala” – a redução da velocidade de fala geralmente diminui a ocorrência da gagueira. Para aprender a falar mais devagar, é necessário treinar a diminuição da velocidade na leitura e na fala espontânea. No início, a diminuição da velocidade de fala é voluntária, mas, com o treino, vai se tornando cada vez mais automática.

 
Aumento no uso de pausas silenciosas – a utilização de um maior número de pausas na fala também é uma estratégia eficiente para diminuir a ocorrência da gagueira. Entretanto, se as pausas forem muito numerosas ou muito longas, a fala também vai soar pouco fluente. Por isso, o treino é organizado para que a pessoa que gagueja aprenda a utilizar mais pausas na fala, mas em quantidade e duração adequadas.

 
Suavização – a pessoa que gagueja, muitas vezes, utiliza um excesso de tensão muscular para articular os sons da fala. Quando isso ocorre, percebe-se que há excesso de esforço físico para falar, que se manifesta principalmente nos bloqueios. A suavização consiste em aprender a articular os sons da fala com menor tensão muscular. No início, a diminuição da tensão muscular é voluntária, mas, com o treino, vai se tornando cada vez mais automática. O treino envolve a prática da suavização na leitura e na fala espontânea.

 
7) Gagueira ao falar dados pessoais (nome, endereço, telefone, RG, CPF)

Algumas pessoas gaguejam justamente quando são solicitadas a fornecer seus dados pessoais. Os dados pessoais são informações que geralmente estão fortemente memorizadas e, portanto, espera-se que a pessoa saiba referi-los prontamente. Nestes casos, a redução da pressão de tempo e a estratégia de suavização são especialmente indicados.

 


TAQUIFEMIA

O que é taquifemia

 

A taquifemia é um distúrbio de fluência, que compromete principalmente a velocidade da fala. Quem apresenta taquifemia diz: “Eu falo tão rápido que ninguém consegue entender” ou “Eu falo muito rápido e vou comendo as palavras”.

 

Sintomas

 

Os sintomas da taquifemia incluem:

 

Causas

 

A maioria das pessoas com taquifemia refere outros familiares que também falam rápido. Desta forma, há indícios de que a taquifemia seja transmitida geneticamente. As mutações genéticas relacionadas à taquifemia ocasionariam mau funcionamento de áreas do cérebro relacionadas à fala e, principalmente, ao ritmo da fala.

 

Distúrbios associados

Schoolgirl rising her hand at geography lesson
Gagueira: é o distúrbio mais comum de fluência. Ocorrem sintomas como repetições (de sons, sílabas ou de palavras monossilábicas), alongamentos e bloqueios de sons. A taquifemia geralmente ocorre em conjunto com a gagueira. 35% das pessoas com gagueira também apresentam taquifemia.

 
Transtorno de aprendizagem: é um termo que se refere a dificuldades na aquisição da leitura, escrita e/ou matemática. O desempenho nessas áreas não é compatível com a idade cronológica, com a inteligência e com a escolaridade. Aproximadamente 5% das crianças apresentam transtorno de aprendizagem. Em torno de 20% das pessoas com transtorno de aprendizagem também apresentam TDAHI.

 
Transtorno de déficit de atenção, hiperatividade e/ou impulsividade (TDAHI): refere-se a dificuldades com atenção (esquecer coisas, fazer erros por descuido, ter dificuldade para se concentrar, distrair-se facilmente, etc.), com o grau de atividade corporal (ser muito inquieto, movimentar-se excessivamente, falar muito, etc.) e/ou com o controle de impulsos (interromper os outros com frequência, intrometer-se em conversações, fazer coisas sem pensar, etc.). É necessário haver diversos sintomas em pelo menos duas áreas da vida (em casa, na escola ou no trabalho) e por pelo menos 6 meses para que o diagnóstico possa ser estabelecido. O TDAHI acomete aproximadamente 3% da população. Em torno de 30% das pessoas com TDAHI também apresentam transtorno de aprendizagem. O diagnóstico de TDAHI é feito pelo neurologista, psiquiatra ou psicólogo.

 

Avaliação fonoaudiológica

 

Na avaliação, são colhidas amostras de fala em situação de repetição de palavras, repetição de frases, fala semi-espontânea e leitura em voz alta. As amostras são analisadas em termos de velocidade de fala, pausas silenciosas, frequência e tipologia de hesitações/disfluências, coordenação entre respiração e fala, articulação dos sons de fala. A fala semi-espontânea também é analisada em relação à estruturação textual (habilidade para descrever, narrar e argumentar). Quando necessário, também incluímos avaliação específica de compreensão de fala, vocabulário, leitura, escrita e audição.

 

Tratamento fonoaudiológico

 

O tratamento para taquifemia geralmente apresenta as seguintes metas:

 
1) Melhora da percepção da própria fala: são utilizadas diversas estratégias – ouvir gravações da própria fala, variar voluntariamente a velocidade de fala, observar-se em situações específicas do dia-a-dia.

 
2) Diminuição da velocidade de fala e aumento de pausas silenciosas: o paciente treina a redução de sua velocidade de fala, articulando com clareza todas as sílabas das palavras e fazendo pausas em locais adequados. São utilizados materiais como repetição de frases, leitura em voz alta e narrativa de cartoons.

 
3) Melhora da articulação dos sons de fala: quando as alterações articulatórias são estritamente devidas ao aumento da velocidade de fala, melhoram automaticamente com a diminuição da velocidade. Quando este não for o caso (por exemplo, quando ocorrem trocas de sons), é necessário focar a produção dos sons propriamente ditos.

 
4) Aprimoramento do vocabulário: são utilizados jogos de campos semânticos específicos para melhorar o vocabulário.

 
5) Encontrar palavras durante a fala (acesso lexical): a diminuição da velocidade de fala e o aumento de pausas silenciosas geralmente melhoram o acesso lexical durante a fala espontânea. Quando isso não é suficiente, lançamos mão de estratégias para reforçar as conexões entre palavras no dicionário mental. São realizadas atividades que eliciam palavras do mesmo campo semântico, palavras com vários significados (polissemia), sinônimos, antônimos.

 
6) Aprimoramento das habilidades textual-discursivas: são utilizadas histórias em quadrinho sem texto (cartoons) para aprimorar as habilidades de descrição, narrativa e argumentação.

 
7) Hesitações/disfluências comuns e reformulações: a diminuição da velocidade de fala, o aumento no número de pausas silenciosas e o aprimoramento do vocabulário, do acesso lexical e das habilidades discursivas promovem a diminuição no número de hesitações e de reformulações na fala espontânea.

 
8) Leitura: em diversos casos, a diminuição da velocidade de fala auxilia na compreensão do texto lido. Entretanto, alguns pacientes apresentam dificuldades maiores de leitura. Se o comprometimento for na rota lexical, haverá maior dificuldade para ler palavras irregulares. Se o comprometimento for na rota fonológica, haverá maior dificuldade para ler palavras novas ou não-palavras. Neste caso, o paciente será encaminhado para fonoaudiólogo especializado em leitura e escrita.


FEBRE REUMÁTICAE DISTÚRBIOS DA FALA

O que é febre reumática?

 

Infecções de garganta causadas por estreptococos do grupo A (um tipo de bactéria) são bastante comuns. Na grande maioria dos casos, a infecção não é grave e melhora em pouco tempo. Mas, em algumas pessoas, o sistema imune comete um erro de identificação e, ao invés de atacar somente a bactéria, também começa a atacar algumas regiões do corpo. Quando isso acontece, começam a surgir uma série de sintomas: inflamação e dor nas articulações; dores no peito, sensação de cansaço ou de falta de ar; manchas avermelhadas na pele;  nódulos embaixo da pele; e/ou movimentos involuntários e abruptos. Febre reumática é o nome que se dá para essas complicações que podem ocorrer após infecções de garganta por estreptococos do grupo A.

 

O que é coreia de Sydenham?

 

Coreia é um distúrbio de movimento ocasionado por uma dificuldade do cérebro em inibir movimentos indesejados. Ocorrem movimentos involuntários, de início abrupto e que migram de uma região para outra do corpo. Todos os movimentos voluntários (andar, falar, escrever, comer, etc.) são parasitados pelos movimentos involuntários da coréia, provocando interrupções e desvios de trajetória. Coreia de Sydenham é o nome que se dá para a coréia originada da febre reumática.

 

O que é disartria hipercinética?

 

Em torno de 50% das pessoas com coreia de Sydenham apresentam problemas de fala. Geralmente os problemas são: dificuldades para respirar e falar ao mesmo tempo; voz soprosa e áspera; variações inadequadas no tom e no volume da voz; fala distorcida; fala lenta. Disartria hipercinética é o nome que se dá a esses problemas de fala ocasionados pelos espasmos musculares da coreia de Sydenham.

 

Avaliação fonoaudiológica

View From Behind As CEO Addresses Meeting In Boardroom

 

Na avaliação, são colhidas amostras de fala em situação de repetição de palavras, repetição de frases, fala semi-espontânea e leitura em voz alta. As amostras são analisadas em termos de velocidade de fala, pausas silenciosas, frequência e tipologia de hesitações/disfluências, coordenação entre respiração e fala, tom e volume da voz, qualidade vocal, nasalidade e articulação dos sons de fala. A fala semi-espontânea também é analisada em relação à estruturação textual (habilidade para descrever, narrar e argumentar). Quando necessário, também incluímos avaliação específica de compreensão de fala, vocabulário, leitura, escrita e audição.

 

Tratamento fonoaudiológico

 

Com base nos resultados da avaliação, as estratégias terapêuticas mais adequadas são selecionadas:

 

1) Melhora da coordenação entre respiração e fala: são realizados exercícios para melhorar a intensidade da inspiração e para prolongar a duração da expiração.

 

2) Diminuição da hipernasalidade: são realizadas atividades para melhor direcionar o fluxo de ar para a boca. Quando a hipernasalidade for intensa, o paciente é encaminhado para confecção de prótese elevadora de palato.

 

3) Melhora da articulação dos sons de fala: são treinados os sons específicos que o paciente tem dificuldade para produzir.

 

4) Melhora da voz: são realizadas atividades para que o paciente enfatize as palavras que considera mais importantes em sua fala, modulando assim o tom e o volume da voz.

 

5) Aumento da velocidade de fala: o ritmo da fala resulta da sucessão de durações de vogais, consoantes e pausas. A melhora da coordenação entre respiração e fala e a melhora da articulação dos sons da fala também são estratégias úteis para adequar a velocidade de fala.

 


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