Gagueira e alergia alimentar

mar 22, 2021 | por Sandra Merlo | Comorbidades, Gagueira

Estudos sugerem que alguns casos de gagueira infantil, particularmente até os 10 anos de idade, podem estar relacionados à alergia alimentar.

Embora a prática clínica sugira que alguns casos de gagueira infantil estão correlacionados com alergia alimentar, não existem ainda pesquisas conclusivas sobre o assunto. Mas este pode ser um tópico promissor no tratamento da gagueira.

O pediatra francês Taan Aboudiab e colaboradores publicaram dois artigos com o relato de cinco casos de crianças que se recuperaram da gagueira quando a alergia alimentar foi tratada [1, 2]. Os primeiros dois casos foram relatados em um estudo publicado em 2007 [1]. Analisando um grupo de 15 crianças com alergia ao leite de vaca, entre 18 meses e 6 anos, os pesquisadores observaram tanto sintomas digestivos quanto neurológicos. Dentre os sintomas digestivos, estavam a constipação e a dor abdominal. Dentre os sintomas neurológicos, o mais frequente foram a hiperatividade e os distúrbios de sono. Além disso, duas das 15 crianças também apresentavam gagueira. A retirada do leite e de seus derivados da dieta reduziu os sintomas de hiperatividade após 48 horas em 13 das 15 crianças. A reintrodução do leite fez com que os sintomas retornassem em 48 horas. Em relação às duas crianças com gagueira, os autores relataram que a gagueira também regrediu, tendo retornado com a reintrodução do leite e seus derivados.

Os outros três relatos foram publicados pelo mesmo grupo em um artigo de 2013 [2]. As crianças tinham entre 3 e 6 anos e também apresentavam alergia ao leite de vaca. As crianças apresentavam gagueira, problemas de sono e alergia de pele. A retirada do leite e de seus derivados da dieta ocasionou melhora completa da gagueira e dos problemas de sono após cinco dias, segundo os autores. A alergia de pele apresentou melhora após quinze dias. Após um mês, foi feita reintrodução do leite e de seus derivados na dieta, havendo recidiva da gagueira. Após seis meses, foi feita nova tentativa de reintrodução do leite e de seus derivados na dieta, mas também houve recidiva da gagueira. As crianças então permaneceram mais três anos sem consumir leite e seus derivados. Após este período, o leite foi reintroduzido em sua forma fervida e, segundo os autores, não houve recidiva da gagueira.

Aboudiab e colaboradores argumentaram que a hipersensibilidade às proteínas do leite de vaca poderia causar inflamação crônica não apenas no trato digestivo, mas também em outros órgãos e sistemas (como no cérebro e na pele) [2]. A inflamação crônica, por sua vez, seria responsável pelos sintomas apresentados pelas crianças alérgicas [2]. De fato, já existe um modelo animal em camundongos demonstrando que a alergia a proteínas do leite de vaca provoca reação inflamatória não apenas no intestino, mas também no cérebro, devido à secreção do fator de necrose tumoral alfa pelas células do sistema imune [3]. No cérebro dos camundongos, a inflamação ocorreu na região da substância negra [3], que faz parte dos núcleos da base. Em relação ao comportamento, os camundongos apresentaram sinais de depressão (devido à redução da mobilidade física) e sinais de ansiedade (devido à menor exploração de novos ambientes) na prova de labirinto [3]. Como pode ser visto, um modelo animal de alergia alimentar demonstrou haver inflamação cerebral associada à ocorrência de sintomas “clínicos” [3].

Analisando dados epidemiológicos americanos, o fonoaudiólogo Patrick Briley e eu mostramos recentemente que um grupo de 200 crianças e adolescentes com gagueira possuía o dobro de chances de apresentar alergia alimentar em comparação a 9.951 pares sem gagueira [4]. De maneira geral, os pais relataram alergia alimentar em 14% das crianças e adolescentes com gagueira, enquanto apenas 5% dos pais das crianças e adolescentes sem gagueira relataram o mesmo.

É interessante observar que o relato de alergia alimentar se manteve constante dos 4 aos 17 anos nas crianças e adolescentes sem gagueira (oscilando entre 4 e 6%) [4]. Por outro lado, o relato de alergia alimentar foi alto nas crianças com gagueira entre 4 e 10 anos (~17%) e decaiu na adolescência (~8%) [4]. Portanto, os dados epidemiológicos que analisamos sugerem que alguns casos de gagueira infantil possam estar associados à alergia alimentar. Assim como ocorre com a gagueira, boa parte dos casos de alergia alimentar são passageiros, havendo redução da hipersensibilidade conforme o sistema imunológico aprende a não reagir excessivamente aos alimentos [5]. Cerca de 50% das crianças alérgicas a leite de vaca, ovo, soja e trigo melhoram espontaneamente até os 10 anos [5]. Por outro lado, alergia a nozes, peixe e frutos do mar tendem a ser persistentes [5]. Levando em consideração a alta taxa de melhora espontânea na resposta do sistema imune à alergia ao leite de vaca, pode ser que os cinco casos relatados por Aboudiab e colaboradores [1, 2] apresentassem melhora espontânea da gagueira até a idade de 10 anos, caso também apresentassem melhora da alergia alimentar até esta idade [4].

Devido a estes e a outros achados, a fonoaudióloga brasileira Mayra Oliveira incluiu uma pergunta sobre a presença de alergias em crianças que gaguejam em seu “Instrumento de Rastreio para a Gagueira do Desenvolvimento” [6]. O material está sendo aplicado em um grupo de crianças com e sem gagueira. Os resultados serão publicados em breve, quando então vamos saber se este novo estudo também encontrou maior ocorrência de alergias em crianças com gagueira.

Se estudos futuros confirmarem que existe uma relação causal entre a inflamação cerebral induzida pela alergia alimentar e alguns casos de gagueira infantil, a anamnese fonoaudiológica vai precisar incluir perguntas básicas sobre sintomas de alergia alimentar. Sintomas gastrointestinais (como vômitos, dor abdominal, diarreia ou constipação) e sintomas de pele são as manifestações clínicas mais frequentes da alergia alimentar [5]. A investigação clínica do pediatra ou do alergologista vai indicar se, de fato, a criança apresenta alergia alimentar. Nos casos em que a alergia alimentar for confirmada, o fonoaudiólogo deve auxiliar no esclarecimento da possível relação entre alergia alimentar e gagueira. Gravações da fala da criança antes e depois da dieta de restrição permitiriam demonstrar se houve ou não melhora da gagueira.

 

Referências

[1] Aboudiab, T., Léké, L., Zahreddine, K., Darras, J., Hawari, S. & Chouraki, J.-P. (2007). Is non IgE-dependent hypersensitivity to milk cow proteins responsible for hyperactivity in child? Journal de Pédiatrie et de Puériculture, 20 (3-4), 111-113.

[2] Aboudiab, T., Hawari, S., Agla, E., Moussa, Y., & Léké, L. (2013). [Is non-IgE-mediated cow’s milk protein hypersensitivity responsible for stuttering in children?]. Archives de Pédiatrie, 20 (6), 692-693.

[3] Smith, N. A., Germundson, D. L., Combs, C. K., Vendsel, L. P. & Nagamoto-Combs, K. (2019). Astrogliosis associated with behavioral abnormality in a non-anaphylactic mouse model of cow’s milk allergy. Frontiers in Cellular Neuroscience, 13, article 320.

[4] Briley, P. M. & Merlo, S. (2020). Presence of allergies and their impact on sleep in children who stutter. Perspectives of the ASHA Special Interest Groups, 5 (6), 1454-1466.

[5] Sicherer, S. H., & Sampson, H. A. (2018). Food allergy: A review and update on epidemiology, pathogenesis, diagnosis, prevention, and management. Journal of Allergy and Clinical Immunology, 141(1), 41-58.

[6] Lima, M. M. O., Cordeiro, A. A. A., & Queiroga, B. A. M. (2020). Instrumento de Rastreio para a Gagueira do Desenvolvimento: elaboração e validação de conteúdo. Revista CEFAC, 23 (1), e9520.