Gagueira e montelucaste de sódio

abr 26, 2021 | por Sandra Merlo | Alergias, Gagueira, Medicamentos, Últimas descobertas

O medicamento montelucaste de sódio, utilizado para tratar alergias respiratórias, tem a gagueira como um de seus efeitos colaterais neuropsiquiátricos.

Pessoas com gagueira são duas vezes mais propensas a apresentar alergias respiratórias, como rinite e asma [1, 2]. Por isso, é comum o fonoaudiólogo que atende esta população acompanhar o tratamento médico ou até mesmo solicitar ao médico o tratamento destas condições. A melhora da rinite e/ou da asma alérgica é importante não apenas para facilitar o controle da respiração durante a fala, mas também para melhorar a qualidade do sono.

Entretanto, os fonoaudiólogos que atendem pessoas com gagueira que estão fazendo tratamento medicamentoso para alergias respiratórias precisam estar atentos ao uso da substância “montelucaste de sódio” (comercialmente disponível sob as denominações Montelair, Singulair, Piemonte, Levolukast, dentre outros). Isso porque um dos efeitos colaterais do montelucaste é a piora da gagueira, a qual inclusive já consta em bula.

O montelucaste se liga aos receptores de leucotrienos, bloqueando a ação deste mediador químico [3]. Os leucotrienos são produzidos por eosinófilos e mastócitos [3], que são células do sistema imune envolvidas no processo alérgico. Os leucotrienos estão envolvidos no processo de inflamação nas vias aéreas, ocasionando broncoconstrição e hipersecreção de muco, por exemplo [3]. O uso do montelucaste auxilia na redução da inflamação e, consequentemente, na redução dos sintomas alérgicos nas vias respiratórias [3]. Entretanto, após o início da comercialização do montelucaste, efeitos colaterais neuropsiquiátricos começaram a ser relatados. Um desses efeitos colaterais é a gagueira, mas também há outros efeitos, como desatenção, agitação, irritabilidade, sonambulismo, pesadelos e ideação suicida.

Em abril de 2020, nos EUA, a “Food and Drug Administration” (FDA) determinou a inserção de um quadro de alerta na bula do montelucaste, avisando sobre os efeitos colaterais neuropsiquiátricos da medicação [4]. A FDA sugeriu que, para rinite alérgica, o montelucaste seja prescrito somente se a alergia não puder ser controlada com outra medicação [4]. No caso da asma, a FDA recomendou que os médicos ponderem sobre a relação custo-benefício ao prescrever a medicação [4]. Além disso, a FDA recomendou que os pacientes (ou responsáveis) sejam alertados para os possíveis efeitos colaterais neuropsiquiátricos antes do uso da medicação [4].

A FDA recomendou a interrupção imediata do montelucaste caso o paciente apresente gagueira (ou piora da gagueira) durante o uso da medicação – a orientação também vale para os outros efeitos colaterais neuropsiquiátricos [4]. Veja a seguir:

Texto disponível no site da FDA (EUA) orientando a interrupção imediata do montelucaste de sódio em caso de gagueira ou outras reações neuropsiquiátricas (grifo meu).

 

Em fevereiro de 2020, o “National Health System” da Grã-Bretanha também reconheceu os efeitos colaterais neuropsiquiátricos do montelucaste, considerando a gagueira como efeito colateral sério da medicação [5]. Veja a seguir:

Texto disponível no site do NHS (Inglaterra) orientando o contato imediato com o médico se ocorrer gagueira com o uso do montelucaste de sódio (grifo meu).

 

Segundo a FDA, na maioria dos casos, os efeitos colaterais neuropsiquiátricos deflagrados pelo montelucaste desaparecem após a interrupção da medicação [4]. Entretanto, em alguns casos, os efeitos persistem mesmo após a descontinuação do medicamento [4]. Cabe ao médico e ao paciente (ou responsáveis) decidirem conjuntamente se a condição alérgica é de gravidade tal que compense o uso desta medicação específica.

O fonoaudiólogo precisa estar ciente da possível piora da gagueira (ou do início da gagueira) em pacientes que estão fazendo uso do montelucaste. Na minha experiência, os pacientes (ou responsáveis) não associam a piora da gagueira ao uso do montelucaste. Alguns inclusive duvidam que a piora da gagueira possa estar sendo causada pela medicação. Nestes casos, é necessária a comunicação do fonoaudiólogo com o médico responsável pela prescrição, a fim de averiguar se outra medicação pode ser utilizada. Na minha experiência, se houver piora da gagueira, ela costuma ocorrer de 1 a 2 semanas após o início da medicação. O retorno da gagueira ao nível pré-medicação também leva cerca de 1 a 2 semanas. Até o momento, não tive nenhum caso em que a gagueira não retornou ao nível pré-medicação.

 

Referências

[1] Briley, P. M. & Merlo, S. (2020). Presence of allergies and their impact on sleep in children who stutter. Perspectives of the ASHA Special Interest Groups, 5 (6), 1454-1466.

[2] Ajdacic-Gross, V., Rodgers, S., Müller, M., von Känel, R., Seifritz, E., Castelao, E., Strippoli, M.-P. F., Vandeleur, C., Preisig, M, & Howell, P. (2020). Hay fever is associated with prevalence, age of onset and persistence of stuttering. Advances in Neurodevelopmental Disorders, 4, 67-73.

[3] Niimi, A. (2013). Cough, asthma, and cysteinyl-leukotrienes. Pulmonary Pharmacology & Therapeutics, 26 (5), 514-519.

[4] Food and Drug Administration – FDA. (2020). FDA requires Boxed Warning about serious mental health side effects for asthma and allergy drug montelukast (Singulair); advises restricting use for allergic rhinitis. United States of America.

[5] National Health System – NHS. (2020). Montelukast – Brand name: Singulair. United Kingdom.